segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A vida e a morte das grandes angústias de pequenas proporções

Há um bicho que mora dentro de mim. É um bicho sem cor e sem face, que faz morada no meu medo e cala a boca do estômago apertando-o com tamanha força que sinto suas mãos miúdas e gélidas subindo-me o esôfago. Sinto refluxo.

Ele não se demora, mas, pra ir embora, deixa antes o bedum cadavérico nos seios embalsamados das papas da minha língua e, antes mesmo da alvorada, já posso sentir a morte tomando-me pelos dedos dos pés; o frio erguendo os pelos do meu cu como se fosse a infantaria me percorrendo, bradando valentemente as vis palavras de ordem. Meu corpo é um campo de batalha.

Aos poucos transfiguro-me em coliseu. As muriçocas perfuram-me insistentemente a pele, como morcegos que sobrevoam a noite medonha, batendo-se umas nas outras num festim diabólico do emaranhado da floresta que guardo por, entre e pelas pernas.

A lua cheia transborda do vazio dos animais noturnos que furtam-se do Sol para não admirarem a beleza serpenteante das cicatrizes desvendadas pela luz do fim do túnel.