segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Vá devagar, seja ameno.

Hoje eu não escovei os dentes antes de dormir. Eu mesmo ando com a memória fraca, já nem lembro mais quando foi que passamos aquele dia na Atalaia, só lembro que esse dia existiu porque o laranja do sol invadindo seu hálito de goiaba cravou em mim pior que tatuagem. Você lembra como o sol era laranja?
Hoje eu não tomei banho quando acordei. Eu mesmo ando com o corpo dolorido. Sei que costumava fazer caminhadas tão longas até a sua casa, ia ouvindo as nossas músicas pra o tempo passar rápido. Há quem diga que você é a razão por que mudei de cidade. Deve ser. Quando cheguei aqui, uma senhora muito velha passou por mim e ela tinha o seu cheiro. Nem assim. Nem assim.
Hoje tinha um argentino fazendo bolhas de sabão e pessoas recitando poesias, era noite, mas eu via o sol ali em algum lugar, talvez escondido no rosto das pessoas ou no fundo dos seus olhos. Eu deitei a cabeça na sua coxa e via seu queixo. Ficara mais bonito dali debaixo – talvez por isso tenha revisitado esse lugar por mais vezes naquela mesma noite, mas eu via o sol ali em algum lugar, talvez escondido no fundo dos seus olhos ou no céu da alameda.

Hoje eu não escovei os dentes antes de dormir, ando com a memória fraca. Só lembro do  beijo e, se isso é tudo que eu tenho, não posso queimar os lábios com flúor.

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