sábado, 25 de fevereiro de 2017

Como um lobo

Eu poderia ter ido, mas eu não fui
Eu poderia ter pedido pra você ficar, mas eu não pedi
Não, eu não pedi
Eu poderia ter juntado dinheiro, feito as malas, partido, mas eu preferi ficar
Eu poderia ter passado em sua casa, roubado a madrugada, mas eu preferi deitar
Eu poderia ter dito não, mil vezes não, mas eu quis ser justo
E por falar em querer, eu poderia querer muito mais, mas eu não quis
De todas as coisas que eu poderia perder, você era a última
E dizer que poder é querer é enganar a si
É fechar os olhos e pular no precipício
E por isso eu digo a mim mesmo todos os dias
Que eu não te quero, não assim
E por isso eu digo a mim mesmo todos os dias
Que eu prefiro ser sozinho
Porque de todas as coisas erradas que faço
Se não me engano, me engano bem
Então eu minto pra mim dizendo
Que não quero lembrar de você
Dançando aquela valsa que dizia
Querer não é poder

Régis

Ele junta os dois pés, calcanhar com calcanhar. Sempre muito ereto, uma postura invejável. Coloca as palmas das mãos na altura do peito e se curva, abaixando a cabeça. Parece fazer de conta que cada ser humano é um templo, uma via sacra, mas ele não faz de conta. Estica os braços o máximo que pode e abraça forte. Forte mesmo. Os dedos finos encostam minhas costas e se contraem, nossos peitos se tocam como se fôssemos fundir numa única solução aquosa de suor. Inclusive isso não faz a menor diferença pra ele – ele até prefere abraçar homens. 

De longe dá pra ver que ele não chega, ele simplesmente está em qualquer lugar; e é por isso que as pessoas se acostumam com a presença dele, porque sem ele, nada seria a mesma coisa. Régis medita no meio da multidão, Régis anda sempre com uma mala preta, Régis sempre anda depressa, mas não com pressa. Régis sempre abraça e cumprimenta as pessoas, Régis canta ópera nos corredores, Régis sempre faz o que ele bem entender. Quem não sabe, não compreende, acredita que tudo que ele quer é atenção, parece um pouco absurdo demais a ideia de que alguém pode ser tudo que quer.

Hoje, Régis me disse que todo dia é o melhor dia da vida dele e, tentando meio desajeitado explicar como se medita, disse que era igual a tocar violão: não é porque você não sabe tocar aquela música que você não sabe tocar violão, você toca do seu jeito, como der, até conseguir tocar aquela música.

Quem não se apaixona por Régis não sabe ser quem quer ser, não entende que ele por ser ele não podia ser ninguém mais e, sem ele, nada é do mesmo jeito. E quem quer alguém pra ser o que você não é se você já é tudo que você quer? Ah, se todo mundo fosse Régis...Ninguém perdia ninguém. Mas eu não entendo, muito menos você, porque ninguém é como Régis.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Na fogueira

E na nossa dança é assim
Eu colo em você, você gruda em mim
Fica até o outro carnaval
Meu nariz em seu cangote
Como cordão umbilical
Dança melhor quem aprendeu a esperar
Por isso troco os passos, desfaço os laços
Troco de par

Na nossa dança é desse jeito
De Aracaju à Olindina fica o cheiro
Eu sorrio pra você, você agarra em mim
E todo o bloco sabe
Que quem tem vergonha de dançar
É bem vindo no rebu
Dos que também não sabem amar

Vá devagar, seja ameno.

Hoje eu não escovei os dentes antes de dormir. Eu mesmo ando com a memória fraca, já nem lembro mais quando foi que passamos aquele dia na Atalaia, só lembro que esse dia existiu porque o laranja do sol invadindo seu hálito de goiaba cravou em mim pior que tatuagem. Você lembra como o sol era laranja?
Hoje eu não tomei banho quando acordei. Eu mesmo ando com o corpo dolorido. Sei que costumava fazer caminhadas tão longas até a sua casa, ia ouvindo as nossas músicas pra o tempo passar rápido. Há quem diga que você é a razão por que mudei de cidade. Deve ser. Quando cheguei aqui, uma senhora muito velha passou por mim e ela tinha o seu cheiro. Nem assim. Nem assim.
Hoje tinha um argentino fazendo bolhas de sabão e pessoas recitando poesias, era noite, mas eu via o sol ali em algum lugar, talvez escondido no rosto das pessoas ou no fundo dos seus olhos. Eu deitei a cabeça na sua coxa e via seu queixo. Ficara mais bonito dali debaixo – talvez por isso tenha revisitado esse lugar por mais vezes naquela mesma noite, mas eu via o sol ali em algum lugar, talvez escondido no fundo dos seus olhos ou no céu da alameda.

Hoje eu não escovei os dentes antes de dormir, ando com a memória fraca. Só lembro do  beijo e, se isso é tudo que eu tenho, não posso queimar os lábios com flúor.