sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Você gostou da volta no parque hoje à tarde?

Eram dez horas da noite quando os corredores do edifício ouviam assustados os passos descompassados de nós dois. O som da sua risada me fizera esquecer que haviam pessoas dormindo ali - fosse só isso também não esqueceria as chaves de casa dentro do táxi. A sorte é que sempre ando com uma cópia nos bolsos. Aliás, que sorte a minha. 
Não estava acostumado a abrir a casa com aquele chaveiro vermelho. Na hora pensei que lembraria desse dia daqui a alguns anos só por essa bobagem pequena, como certa vez que saí de casa pra te ver e pensei em fazer exercícios mnemônicos pra não esquecer jamais daquele momento. A diferença é que agora não preciso me exercitar.
Bati a porta sem olhar pra trás, nem rodei as chaves. Havia algo de muito mais intrigante no vermelho do seu lábio inferior que no vermelho daquele chaveiro - ambos incomuns pra mim, ambos novidades. Era a primeira vez que você entrava em meu apartamento, mas acho que nem reparou a desordem. Fiz de propósito. Quando nós dois saceássemos nossa sede, eu poria a culpa na bagunça que fizemos, mesmo sabendo que você ia sacar minha mentira, rindo pra tentar ser educado. Eu sei, você ta chateado porque fujo do assunto principal, mas peço que entenda - não é por mal. 
Toco o fundo da sua orelha com a palma da minha mão, deitando meus indicadores na sua nuca como se quisessem conversar com o resto do seu corpo, contido. A beleza que existe nesse momento mora nas rachaduras dos seus lábios que, a essa altura, já estavam amarelos de tanto que mordera enquanto passava a ponta da minha língua em seu pescoço. Era uma dança íntima, dança melhor quem desce mais. 
Algumas coisas pareciam fora do lugar, será que eu tinha deixado as chaves com alguém? 
Ajoelhei com as duas mãos na sua cintura e agora eu via suas costas nuas, largas, de um lugar de quem implorava pra você não ir embora. O gosto do seu corpo era sinestésico - evocava cheiros, lembranças de sonhos que tivera. E dali mesmo, proclamei em voz alta dentro da minha cabeça: como seu cheiro até sentir só o gosto da minha própria saliva! 
Você gostou da volta no parque hoje à tarde? 
Você lembra como o sol tocava leve sua pele do topo da roda gigante?
Eu te digo "não repare a bagunça que a gente fez, eu arrumo." Você ri. Eu acho graça. 
Estranhamente, as coisas estavam fora do lugar. Será que emprestei minhas chaves a alguém? Olhei pra porta e ela estava lá: a chave do chaveiro preto. Comentei com você e nem você estava mais no mesmo lugar. Será que era sonho? 
E era.

2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso, Yann ♥ dos que li, até agora esse foi o que mais gostei.

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  2. Que texto maravilhoso, Yann ♥ dos que li, até agora esse foi o que mais gostei.

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