sábado, 27 de agosto de 2016

Segundo encontro

Ele chegou estranhamente calmo, subindo a escadaria cinza que levava ao meu quarto em passos curtos, pé por pé, como quem sentia certo frio na barriga, sob o ruído de algum assunto forçado com meu irmão para fingir uma naturalidade visivelmente forjada, e ele sabia disso.
Era um rapaz de estatura média, mas por ser bastante magro, causava a impressão de ser mais alto do que o que realmente era. As tatuagens cobriam-lhe as pernas e contavam mais sobre ele do que aquela conversa no pé do último degrau. Pausou brevemente na porta do quarto e baforou um cumprimento meio sem jeito, cruzando o verde de seus olhos - encobertos sob olheiras de quem não dormia há dias ou de quem costumava passar horas na frente do computador - com os castanhos meus.
É certo que sempre fui despojado. Nunca me importei com formalidades ou regras de etiqueta, acho que se quiser gostar de mim, que goste enquanto estou de cueca, na cama, depois da décima cerveja, ou nona; não sei. Mas também é certo que aqueles olhos haviam me desconcertado. O verde dos olhos dele era o verde da sinaleira aberta para passar o caminhão sobre meu corpo - dedo dos pés à ponta da cabeça.
Levantei-me da cama esboçando uma feição de incômodo, como de quem estava cumprindo um ritual desnecessário, mas obrigatório em situações como essa. Quisera usar um disfarce, uma atuação que despistasse meu interesse naquela figura onírica, detentora de toda minha atenção. Movi meu corpo em sua direção, tocando-lhe as costas com a palma das mãos ainda úmidas de segurar a cerveja, pressionando seu peito contra o meu e inclinando meu nariz à altura de seu pescoço, tentando reconhecer seu cheiro insuportavelmente familiar, atraente.
"Senta aí. Pode tirar os sapatos, se quiser", tentava fazer com que se sentisse confortável para que assim eu também ficasse, como num encontro com um velho amigo que há anos não via e não soubesse muito bem o que falar, embora tivéssemos uma infinidade de assuntos engavetados, enterrados como fósseis de uma relação estacionada no tempo.
Aquela era a primeira vez que nos víamos.
"Obrigado, mas estou bem assim", respondeu delineando um sorriso cínico, covardemente escondido entre seus labios grossos e bem desenhados. Não queria soar espaçoso, muito menos demonstrar resquícios de uma intimidade estabelecida nas entrelinhas daqueles poucos instantes que estávamos juntos.
Àquela altura o álcool não ajudava a esconder o cheiro que meu corpo exalava, o cheiro das fêmeas prenhas à beira do cio, que roçam os corpos trêmulos nas paredes de uma dança instintivamente selvagem.
Então, dali em diante, passaria a disfarçar com exímio rigor o movimento dos meus olhos que, indecentemente, despiam aquela bermuda fina a fim de descobrir por acaso mais alguma tatuagem que me contasse uma história mais secreta, mais íntima.
Acordei com a sensação desesperadora de não encontrar ninguém em casa, fora abandonado impiedosamente. Mas ele estava lá, em pé, do lado da cama, falando sobre ir embora - havia de chegar cedo.
Ainda abrindo os olhos naquele delírio de quem não sabe se está sonhando, acenei sem dizer nada porque sabia que qualquer coisa que eu falasse despiria meu disfarce ali mesmo, e nós não tínhamos intimidade para isso. Ainda.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Prosa de minuto

Já faz um tempo que eu queria te dizer que já faz um tempo que eu queria te ouvir. Que a melodia da tua voz faz esquecer o tempo que transforma as palavras em lâminas. 
Já faz um dia que estamos no mesmo mês, já fazem dois anos que estamos no mesmo dia e eu nem vi as horas passarem.
E a cada minuto que passa, é um dia que se vai.