sexta-feira, 22 de julho de 2016

Os trilhos

Os ponteiros acusavam duas da manhã, e eu continuava enterrado nas bulas sobre você. Tinha escrito anotações supérfluas em rasgos de papéis e o barulho do lápis no fundo do caderno lembrara teus dedos finos batendo na porta do quarto, oferecendo um café, amargo. Escrevera tanto que alucinei sentir teu cheiro quente e úmido tocando os pelos do nariz, como se abraçasse um arrepio envolto de amor. Que falta o afeto faz! 

Se os gatos não mais cantavam, era sinal de que havia de ir para a cama. Era preferível manter-me acordado a ter que deitar no silêncio ensurdecedor da ausência de alguém. E será que eu vou te ver de novo? Nu, passando nos meus braços como passa a camisa de força que alimenta a loucura dos meus atos?  Sei que fechar os olhos é sinal de que o Sol vai voltar, é sinal que a janela entreaberta do seu quarto vai ser luz na sua carne branca;  mas vermelha seria se eu não arrancasse o peso das costas. Que a loucura maior é matar amor pra renascer.

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