terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Série de pequenas flamas

Hoje acordei com ignóbil alma
Sórdida
Embebido de severa vontade
Selvagem
De varrer as ruas de fogo
Destruir esquinas
Desenfrear
Se sou desritmado
O mundo que se encaixe
Destruído
Dentro de mim
Destruído
Como a peça que falta
Quando quebro a sua cabeça
Asfalto

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Você gostou da volta no parque hoje à tarde?

Eram dez horas da noite quando os corredores do edifício ouviam assustados os passos descompassados de nós dois. O som da sua risada me fizera esquecer que haviam pessoas dormindo ali - fosse só isso também não esqueceria as chaves de casa dentro do táxi. A sorte é que sempre ando com uma cópia nos bolsos. Aliás, que sorte a minha. 
Não estava acostumado a abrir a casa com aquele chaveiro vermelho. Na hora pensei que lembraria desse dia daqui a alguns anos só por essa bobagem pequena, como certa vez que saí de casa pra te ver e pensei em fazer exercícios mnemônicos pra não esquecer jamais daquele momento. A diferença é que agora não preciso me exercitar.
Bati a porta sem olhar pra trás, nem rodei as chaves. Havia algo de muito mais intrigante no vermelho do seu lábio inferior que no vermelho daquele chaveiro - ambos incomuns pra mim, ambos novidades. Era a primeira vez que você entrava em meu apartamento, mas acho que nem reparou a desordem. Fiz de propósito. Quando nós dois saceássemos nossa sede, eu poria a culpa na bagunça que fizemos, mesmo sabendo que você ia sacar minha mentira, rindo pra tentar ser educado. Eu sei, você ta chateado porque fujo do assunto principal, mas peço que entenda - não é por mal. 
Toco o fundo da sua orelha com a palma da minha mão, deitando meus indicadores na sua nuca como se quisessem conversar com o resto do seu corpo, contido. A beleza que existe nesse momento mora nas rachaduras dos seus lábios que, a essa altura, já estavam amarelos de tanto que mordera enquanto passava a ponta da minha língua em seu pescoço. Era uma dança íntima, dança melhor quem desce mais. 
Algumas coisas pareciam fora do lugar, será que eu tinha deixado as chaves com alguém? 
Ajoelhei com as duas mãos na sua cintura e agora eu via suas costas nuas, largas, de um lugar de quem implorava pra você não ir embora. O gosto do seu corpo era sinestésico - evocava cheiros, lembranças de sonhos que tivera. E dali mesmo, proclamei em voz alta dentro da minha cabeça: como seu cheiro até sentir só o gosto da minha própria saliva! 
Você gostou da volta no parque hoje à tarde? 
Você lembra como o sol tocava leve sua pele do topo da roda gigante?
Eu te digo "não repare a bagunça que a gente fez, eu arrumo." Você ri. Eu acho graça. 
Estranhamente, as coisas estavam fora do lugar. Será que emprestei minhas chaves a alguém? Olhei pra porta e ela estava lá: a chave do chaveiro preto. Comentei com você e nem você estava mais no mesmo lugar. Será que era sonho? 
E era.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Erro de português

Eu mesmo
Foi tudo que eu não soube lhe dar
Não sei se serviu
Eu mesmo
Posto em chamas
E quando chama
Vou

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Mãe do mundo

E se minha boca fosse útero
Eu seria a mãe do mundo
Procurando em banheiro público
O pai da minha dor
De porra em porra
O pai é o mundo inteiro

sábado, 27 de agosto de 2016

Segundo encontro

Ele chegou estranhamente calmo, subindo a escadaria cinza que levava ao meu quarto em passos curtos, pé por pé, como quem sentia certo frio na barriga, sob o ruído de algum assunto forçado com meu irmão para fingir uma naturalidade visivelmente forjada, e ele sabia disso.
Era um rapaz de estatura média, mas por ser bastante magro, causava a impressão de ser mais alto do que o que realmente era. As tatuagens cobriam-lhe as pernas e contavam mais sobre ele do que aquela conversa no pé do último degrau. Pausou brevemente na porta do quarto e baforou um cumprimento meio sem jeito, cruzando o verde de seus olhos - encobertos sob olheiras de quem não dormia há dias ou de quem costumava passar horas na frente do computador - com os castanhos meus.
É certo que sempre fui despojado. Nunca me importei com formalidades ou regras de etiqueta, acho que se quiser gostar de mim, que goste enquanto estou de cueca, na cama, depois da décima cerveja, ou nona; não sei. Mas também é certo que aqueles olhos haviam me desconcertado. O verde dos olhos dele era o verde da sinaleira aberta para passar o caminhão sobre meu corpo - dedo dos pés à ponta da cabeça.
Levantei-me da cama esboçando uma feição de incômodo, como de quem estava cumprindo um ritual desnecessário, mas obrigatório em situações como essa. Quisera usar um disfarce, uma atuação que despistasse meu interesse naquela figura onírica, detentora de toda minha atenção. Movi meu corpo em sua direção, tocando-lhe as costas com a palma das mãos ainda úmidas de segurar a cerveja, pressionando seu peito contra o meu e inclinando meu nariz à altura de seu pescoço, tentando reconhecer seu cheiro insuportavelmente familiar, atraente.
"Senta aí. Pode tirar os sapatos, se quiser", tentava fazer com que se sentisse confortável para que assim eu também ficasse, como num encontro com um velho amigo que há anos não via e não soubesse muito bem o que falar, embora tivéssemos uma infinidade de assuntos engavetados, enterrados como fósseis de uma relação estacionada no tempo.
Aquela era a primeira vez que nos víamos.
"Obrigado, mas estou bem assim", respondeu delineando um sorriso cínico, covardemente escondido entre seus labios grossos e bem desenhados. Não queria soar espaçoso, muito menos demonstrar resquícios de uma intimidade estabelecida nas entrelinhas daqueles poucos instantes que estávamos juntos.
Àquela altura o álcool não ajudava a esconder o cheiro que meu corpo exalava, o cheiro das fêmeas prenhas à beira do cio, que roçam os corpos trêmulos nas paredes de uma dança instintivamente selvagem.
Então, dali em diante, passaria a disfarçar com exímio rigor o movimento dos meus olhos que, indecentemente, despiam aquela bermuda fina a fim de descobrir por acaso mais alguma tatuagem que me contasse uma história mais secreta, mais íntima.
Acordei com a sensação desesperadora de não encontrar ninguém em casa, fora abandonado impiedosamente. Mas ele estava lá, em pé, do lado da cama, falando sobre ir embora - havia de chegar cedo.
Ainda abrindo os olhos naquele delírio de quem não sabe se está sonhando, acenei sem dizer nada porque sabia que qualquer coisa que eu falasse despiria meu disfarce ali mesmo, e nós não tínhamos intimidade para isso. Ainda.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Prosa de minuto

Já faz um tempo que eu queria te dizer que já faz um tempo que eu queria te ouvir. Que a melodia da tua voz faz esquecer o tempo que transforma as palavras em lâminas. 
Já faz um dia que estamos no mesmo mês, já fazem dois anos que estamos no mesmo dia e eu nem vi as horas passarem.
E a cada minuto que passa, é um dia que se vai.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Os trilhos

Os ponteiros acusavam duas da manhã, e eu continuava enterrado nas bulas sobre você. Tinha escrito anotações supérfluas em rasgos de papéis e o barulho do lápis no fundo do caderno lembrara teus dedos finos batendo na porta do quarto, oferecendo um café, amargo. Escrevera tanto que alucinei sentir teu cheiro quente e úmido tocando os pelos do nariz, como se abraçasse um arrepio envolto de amor. Que falta o afeto faz! 

Se os gatos não mais cantavam, era sinal de que havia de ir para a cama. Era preferível manter-me acordado a ter que deitar no silêncio ensurdecedor da ausência de alguém. E será que eu vou te ver de novo? Nu, passando nos meus braços como passa a camisa de força que alimenta a loucura dos meus atos?  Sei que fechar os olhos é sinal de que o Sol vai voltar, é sinal que a janela entreaberta do seu quarto vai ser luz na sua carne branca;  mas vermelha seria se eu não arrancasse o peso das costas. Que a loucura maior é matar amor pra renascer.
Pois dói esquecer do amor, como dói arrancar sêmen seco dos pelos dos pés.

Castelo de Areia

Bem assim é o amor:
Primeiro, sente a água molhar as pontas dos dedos, subindo gelada nus pelos grossos, negros. Da segunda, já não quer se molhar, qual coragem não afugenta a inóspita ignorância do ser? Da terceira, submergem o corpo e alma, da cabeça aos pés, inundam-se as esperanças sem sentir que o coração já afundaram em espesso sal.

Pulso

Nossas penas coloridas
São as almas pulsando na aurora
A bala que fere, que corta a carne
Ecoa no meu grito

Não de preciso de pernas
Desde pequeno aprendi a voar
As feridas nas mãos são o retrato
Daqueles que descansam em paz

Oh, mãe! Me arranca desse aperto
Me abraça e só me acorde no dia em que dessas balas brotem flores
Para mim e para os amantes que se forem

Hoje já não dói, hoje já não fere
O meu luto é a luta de todas as cores
Para brilhar mais alto que o ódio desmedido
Pra pulsar no peito de quem ama

Acima do arco-íris, sei que meus irmãos descansam
Onde a luz não fere, translúcidas almas guiando os que ficam
Pulso fechado para ser forte
Pulso aberto para amar.