quarta-feira, 30 de maio de 2012

Fim de linha

Sentia vontade de partir ao menos uma vez por mês. "Peço que me levem pela minha covardia" - sussurrava inúmeras vezes no escuro para que Deus ou os homens de preto o ouvissem e trouxessem-lhe uma prova de que sua vida havia sido mesmo aquele escarro. O medo. Existe mesmo aquele que acredita em escolhas?
Já não se reconhecia ao espelho, as feridas cobriam seu rosto pálido, sofrido; rasgavam-lhe a pele tão profundamente que nem mesmo o melhor de todos os feitiços poderia colocá-lo em claridade novamente. Era tudo muito dolorido, inexplicavelmente dolorido. Ninguém jamais poderia entender o que ele carregava nas costas, sozinho. Ninguém jamais poderia entender esse sopro que vinha ao seu coração toda vez que chorava baixinho debaixo da chuva, ao som do jazz, segurando uma faca debaixo do travesseiro enquanto a casa festejava.
Era muita poeira pra um homem só, havia de ser bravo, despeitado, porque a vida não lhe dera muitas chances. Por isso não pedia para ir embora, mas para a esperança partir. Assim sua alma descansaria voando como um pássaro ao infinito.