segunda-feira, 5 de setembro de 2011

VHS

Visitas certamente desconcertam, mas são boas, aliás, ótimas. As muitas e muitos filhas e filhos, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas, vizinhos e vizinhas, cachorros e cadelas compunham um cenário de meio-dia num domingo de 1991. No meio de toda aquela falação, Alzira sentava ao sofá, sorrindo como uma mula cega perdida num pasto minado, com uns olhos miúdos parados na parede creme da sala, sem sequer notar que tudo aquilo acontecia graças ao seu ventre - belo- ventre. Vestia saia longa e camisa de botão. Guardava sempre seus óculos no bolso da camisa e a bíblia debaixo do braço. Também usava um diadema prendendo os cabelos já grisalhos.

Entre muitos outros, havia o momento pós – almoço - o favorito de Alzira - em que a mocinha sentava ao sofá mostrando seus metros de perna, bufando, reclamando do quanto havia comido, enquanto soltava um sorriso aberto de olhos entristecidos e o vento esvoaçava seus cabelos anos 90. Ela sorria pro homem casado, e ela também era casada, mas ali, tudo podia. Encostava-se e falava até quando o melhor era ficar calada.

O homem, na outra ponta do outro sofá, usava uns óculos escuros que escondiam para onde olhava – se para mulher, definitivamente não atraente, ou se para aquele ‘brotinho’ de shorts curtos e cabelos que mais pareciam capacete. Na dúvida, vou manter os óculos escuros. Ao lado, sua esposa, ranzinza e nada carismática, que choramingava e emitia sorrisos de flores artificiais enquanto carregava uma menininha no braço.

Bem no meio do caos, Alzira e sua comadre Marieta – a boa companheira que raramente encontrava, mas que, por ela, nutria um apreço enorme.

Olhava prum lado, menino correndo pela casa, pro outro, gente morta de comer deitada no sofá, música ruim tocando. Era o caos. Caos que ela, ao longo dos seus 60 e lá se vão carneirinhos anos, aprendeu não só a gostar, mas a também colecioná-los, selando-os do jeito que sabia: orando.

Levantou-se e, como uma valente matriarca, ordenou que desligassem o som. Baixa essa zuada que quero falar. Assim foi feito. Pediu a atenção de todos e todas para o momento mais importante do dia – o agradecimento ao nosso bom Deus. Tirou os óculos do bolso da camisa, abriu as duas pernas do velho amigo, fechou os olhinhos e esticou a boquinha. Pronto. Puxou a Bíblia e pôs-se a falar.

“Para se conhecer a sabedoria e a instrução; para se entenderem as palavras de inteligência; para se instruir em sábio procedimento, em retidão, justiça e eqüidade, para se dar aos simples prudência, e aos jovens conhecimento e bom siso. Ouça também, o sábio e cresça em ciência, e o entendido adquira habilidade, para entender provérbios e parábolas, as palavras dos sábios, e seus enigmas.” Provérbios 1:6.

E falava, falava, falava. Na metade do caminho, o rapagão já tava pensando no jantar, a esposa, na mamadeira, a criança também e a mocinha na feira. Só Marieta seguia fielmente sua amiga. Um olhava pro teto, outro pra parede, faziam de tudo, só não escutavam o que ela tinha pra falar. Mas ela nem ligava, ela sabia que Deus estava escutando tudo.

Enquanto isso, os que não estavam na sala, chegavam para ouvir o que ela tinha a dizer. Encostavam-se no braço do sofá, ficavam de pé, sentavam na cadeira da sala. Não importa como, a sala enchia, mas logo, logo todo mundo ficava aéreo e mantinham suas posições por uma mera questão de educação. Gesto humilde, nobre, contraditório.

Apesar da pouca atenção que recebiam, as palavras de Deus, ditas a partir de sua boca, soavam como toneladas de amor que caíam sobre a família reunida na sala. O rapaz voltava a amar a esposa, que por sua vez, soltava um sorriso de amor, que atingia a criança que gargalhava sem nenhum motivo aparente, que fazia a moça encostada no braço do sofá olhar pra outra moça de shorts curtos e as duas caírem na risada.

Só que parecia que ela nunca ia parar de falar. Vai durar pra sempre? Ao mesmo tempo, todo mundo queria que fosse eterno só pra sentir aquelas doses de amor por pelo menos uns segundos.

Enfim, acabou. Todos se levantam. Vão embora. Marieta agradece pelas palavras e Alzira dorme. Dorme como um anjo. Dorme feito pedra.

Hoje, em 2011, exatamente 20 anos depois, eu ainda sinto ela alisando meu cabelo enquanto vejo esse dia pela TV e, estando no mesmo lugar que ela estava quando proferiu essas palavras, sinto-as batendo e voltando pela parede, liberando todo o amor que ela pôde botar dentro dessa casa um dia.

“Toca o som!” – disse a mocinha quando Alzira fechou seu livro.

Um comentário:

  1. E tenho dito, você é um dos melhores com as palavras. :)

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