sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Promessa de um junkie

Ele me olhava com cara de quem queria mais, e eu sempre tinha mais. Aproximava-me do rosto dele e beijava sua testa que se cobria de suor. Olhei para sua íris, sorri e me afastei carregando meus braços da frente do meu corpo para minha nuca.
Deitei no banco do carro, nu, enquanto ele, vestido apenas de uma camisa, olhava pelo vidro embaçado do carro. Observava o movimento da rua, pensativo, estático.
- Tá com medo? – perguntei enquanto colocava minhas pernas sobre a coxa dele e ele passava o braço por trás do banco do carro.
- Um pouco. Nunca tinha feito nada parecido num lugar tão aberto... Meio insano. Ainda mais com um menor. Me sinto tão errado, violador das leis. Você não?
- Não, só nostálgico. Era assim que me sentia com ele, você sabe quem...
- Você tá me comparando? É isso? – tirou minhas pernas da coxa dele e pegou a cueca para vestir-se, não escondia a pequena raiva que seus olhos denunciavam ao olhar para o chão bagunçado do carro, ocupado com as calças.
- Não, eu não to falando em doenças, nem abuso. Eu to falando do jeito como eu me sinto quando to aqui com você... Não se culpe, eu já tenho 17, não 12.
- Cala a boca, cara. Não me lembra daquilo que eu não posso lembrar agora. E veste suas roupas, você tem que estar em casa antes das 10.
- Você ta me usando? É isso? ... Eu já deveria saber, seu filha da puta. Você é igual a ele. – Peguei minhas roupas e passei pro banco da frente para me vestir.
- Eu acho que você não entendeu – ele encostou o queixo no banco, deixando sua boca muito próxima ao meu ouvido – Eu amo você, pouco importa o que esse cara fez ou deixou de fazer contigo. Se existe alguém aqui evocando algum passado, é você e não eu. Por favor, deixa isso em p...
- E você acha que é fácil? – tive que interrompê-lo porque não suportava a ideia de ouvir tudo aquilo que eu queria tanto ouvir. Prendia minhas palavras no hálito, segurava minhas lágrimas na dor de tudo que já havia passado. Fixei os olhos na janela.
- Eu sei que não é fácil, mas eu preciso tentar. Você precisa tentar...
- Cala a boca e me leva pra casa logo, vai. – acendi o cigarro que estava no porta luvas e abri a janela do carro enquanto ele dava a partida.
10 minutos de rock and roll, fumaça, óculos escuros e velocidade.
No meu segundo cigarro:
- Pára de fumar... Se sua mãe descobre...
- Ela vai me bater? Oh, por favor... Ela sabia o que aquele cara fazia comigo e nunca falou nem fez nada, agora quer dar uma de santa por causa de um cigarro? Acho que não, hein?
As estradas iam virando círculos e retas, cores e palhaços, beijos e afagos, choro e desespero. E tudo ia se desconstruindo na reconstrução do passado perdido, da inocência interrompida.
- Cara, não to bem... – e a cabeça doía tanto que não via mais cor alguma se não o preto e o branco.
- Ei, ei... Fica comigo, cara. Não me deixe aqui. Olha pra mim! Não, não... – e a voz ia sumindo, e ia tudo girando... e minha infância, cadê? Minha inocência! Filha da puta, filha da puta!
Em um único impulso, puxei o volante para o meu lado e o carro encontrou o poste.
Giro, grito, boca, dente, giro, vidro, sangue, giro, cinto, cigarro, giro, morte, fim.
Acordei assustado, não conseguia parar de chorar. Que merda de pesadelo!
- É assim que tem que ser, é assim que tem que ser...
E eu já não era mais nada daquilo que um dia quis ser. Eu não sabia que eu não podia, podia?
E foi assim que eu matei meus sonhos.
Matei?
Ou mataram?