quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O escritor e o dançarino

E as luzes se apagaram.
Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar!
O tom de penumbra teatral desenhava suas curvas túrgidas levemente delineadas pela luz azul que vinha das coxias. Cabeça baixa, corpo tenso, silêncio. Acendeu-se a luz branca.
Do centro do palco, levantou a cabeça lentamente, fixando os olhos em direção à platéia. O preto no branco desenhava sua sombra no chão de madeira.
Dentro de um súbito movimento, esticou a ponta dos dedos e se pôs a dançar. O som do piano soava apenas para acompanhar a atmosfera melancólica que existia entre nós dois. Para mim, só havia ele no palco e meus olhos alcançavam o movimento de cada pelo, cada membro, cada gesto. Minha cabeça não pensava em mais nada, era vácuo.
Oh, meu amor! Era a cena do apocalipse, do fim da humanidade.
Ao mesmo tempo em que seu corpo desenhava o mundo em sua mais perfeita ordem e sanidade, minha mente fotografava em temperaturas descontroladas e horas sem fim.
1, 2, 3... 4, 7, 42...
A ponta do dedo do seu pé tocava o chão e, nesse momento, vi você flutuar em um universo distante, obscuro, para onde eu sei que me chamava, e eu fui. Caminhei pausadamente até as escadas do palco e subi degrau por degrau fitando seus passos, até mesmo os mais discretos. Via seu corpo cada vez mais perto e a dança continuava, enchi os olhos de lágrimas e a dança continuava, topei seu ombro e a dança parou.
Você, ser dançante, que estava tão fora do meu alcance, tocou minha mão e sorriu, levando-me para longe, para os céus, para onde eu sempre quis estar. Segure-me em seus braços e viajaremos para onde não houver amanhã.
Apagaram as luzes.
Bravo, bravo!

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