sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nosso inferno

Sentei e fitei. Da minha varanda, apenas a imagem turva de mata virgem vinha de encontro aos meus olhos. Sentei na cadeirinha de madeira que se fixava entre a porta e a janela próxima à bancada, e fitei a escuridão da meia noite. Mata apenas. Pus os chinelos por de trás dos calcanhares e apoiei os braços na cadeira, enrijecendo os ombros numa compressão que ia até a vista quase nula. Existia apenas uma única luz que iluminava a portinha do humilde lar e adentrava por alguns poucos metros da mata – o suficiente pra causar uma curiosidade e pavor daquilo que a gente não conhece. Aliás, a ordem é inversa. O medo nada mais é que o desconhecido, não é mesmo?
Trouxera um plástico bolha pra passar o tempo. Nada melhor que a futilidade para matar o ócio e atiçar o medo. Enquanto estourava as bolhas de uma por uma, pensava na dor que sentia, ou ainda sinto, ao lembrar de coisas que nunca foram um dia. Pensava naquela tarde de domingo em que tinha passado horas com meus pais (antes de falecerem) estourando plástico bolha e comendo jacas suculentas no fundo da loja dos patrões. Oh, se soubesse...
Quando cresci, vi-me acordando todos os dias às quatro e meia da manhã, tomando banho de cuia (mais parecia gelo! Lembro do delírio que se passava no momento em que a água tocava minha face. Talvez fosse uma mistura de morte com pavor que acabava no alívio de perceber que a tortura já tinha chegado ao fim) e preparando o café da avó que beirava a cova. Enquanto me arrumava, olhava pela janela da minha antiga casa – Deus existe? Se sim, por favor, avise-o de que estamos precisando de uma urgentíssima visita aqui nesse morro que mais parece uma sentença de que estamos com os dias contados! – E depois saía pra trabalhar.
Tarefa fácil? Longe disso! Para aqueles que acham que eu saía com as chaves do meu carrinho humilde, porém funcional – uma bosta! Eu, pobre, nunca tive nem o direito de sonhar com esses sonhos de gente rica. Tinha era que pegar três ônibus pra chegar às seis na casa daquela vagabunda que me tratava feito cachorro pra ouvir reclamação de que não separei as blusas dela pela cor. Ah, se ela soubesse como é doce só ter três blusas para vestir! Não reclamaria nem metade do que reclama. É cremezinho para o cabelo, cremezinho para as mãozinhas, cremezinho pro seu cú, caralho! Cremezinho é receber mangação todo dia por ter cabelo de preto, cabelo que quebra a escova! Perdoem-me, não vim aqui reclamar dessa situação de decadente, não é mesmo? Afinal, fizeram-me engolir essa história de que sou pobre e preta porque quero e não me respeito. Você deve ser um deles, pateta.
O que ocorreu de fato foi que, neste dia, recebi a noticia de que a velha (a única que me restava e que, ultimamente, me dava mais gastos do que botava alguma coisa dentro de casa) tinha batido as botas. Pedi folga pra patroa e fui correndo pra casa ajeitar as contas da defunta. Maldita fuga da rotina!
Na pressa, tomei outro atalho. Não me atentei para o pior – o moço tava de olho no que eu tinha pra oferecer. Olhei prum lado, olhei pro outro – não vi ninguém a não ser o homem se aproximar de mim com os olhos vermelhos e com a faca na mão. Meu espanto percorreu dos dedões do pé até a espinha do rosto. Que hei de fazer, meu Deus? Corri o máximo que pude, mas que peste de rua infinita era aquela! Maldição, falhei. Ele foi mais rápido, aliás foi tudo tão rápido. Ali mesmo ele esbofeteou meu rosto com tanta força que caí de costas para o chão, apoiando-me com a mão para não que não quebrasse a cara. Tentei me levantar, mas o filha da puta apontou a faca no meu pescoço e me ameaçou. Disse-me para dar ou me mataria. Apresento-lhe um momento de grandessíssima indecisão. Não sou moça dessas vaidades de virgindade, mas de que adianta viver assim? Ser estuprada sabendo que aquele homem tá tão desesperado quanto eu, querendo acabar com esse rombo no estômago do filho e da mulher que já tá prenha de novo. Que ta fazendo isso comigo porque tá alucinado, drogado, vivendo num mundo paralelo pra ver se esquece esse daqui – esse que degenera a cada resto de hora! Ele queria era ter uma mulher que passasse cremezinho nos cotovelos e fizesse comidinha pra ele todo dia, mas cadê? Cadê a comida? Bem, eu virei a dispensa dele por alguns minutos.
Do mesmo jeito que ele veio, ele foi. Rápido. Eu que não ia. Sangrava tanto que não conseguia me erguer de dor. “Filha da puta! Filha da puta!”. Eu gritava no chão da rua, rastejando-me enquanto chorava desesperadamente encontrando o olhar das pessoas dizer: “Pretinha safada! Acho é pouco... É bom que morra, menos uma puta no mundo.” E entravam em seus castelos muito bem protegidos. Mas que porra de vida é essa? Oh, inquisição! Não sou bruxa, sou pobre! Tanto faz?! Queria voltar àquele momento do banho frio. Deus, como achava que era diferente morrer! Agora eu sabia, eu sabia! No último vômito de sangue, fechei os olhos.
Quando abri, ainda sentia meu corpo doer. Eu estava viva! Não me perguntem como, nem por que, nem se eu estou agradecida. Ainda não fiz minha cabeça sobre esse assunto. Mas eu ainda respirava. Sei que estava em alguma espécie de clínica psiquiátrica no meio do mato. Sei também que havia um plástico bolha ao meu lado. Sei também que havia uma portinha com uma cadeira. E é só isso que sei até agora. Não vejo meu futuro, não vejo uma saída, não cabe a mim o direito de sonhar, nem a ninguém, pois enquanto houver gente sem sonhar, esse mundo não há de ser um bom lugar pra se viver. E nunca será. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa vida. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa mentira, não é mesmo?

Um comentário:

  1. devia ter 1 comentário pra cada linha! belíssimo!
    frio na barriga sempre q leio seus textos
    apaixonante

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