sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sob a lua

Dentro de uma figura distante, pintava-se com a mais bela das aquarelas uma cena que punha o amor em evidência, em posição de luta. Óleo sobre a tela, eles sentavam no banco de uma praça banhada ao luar. Ele a abraçava por trás e abaixava a cabeça sobre seu ombro enquanto ela olhava o horizonte numa cena estática. Aquela dança atípica sobre as estrelas despertava o amor mais puro que existia dentro de cada pessoa que os vissem, como o meu. Mas a explosão não coube na tela, e os personagens começaram o movimento.
Ela pôs a mão sobre a cabeça dele e iniciou um cafuné interminável, inalcançável. Seu cabelo caía sobre o rosto, cobrindo seus olhos e metade da boca. A constatação do encontro de duas almas feitas uma para a outra aconteceu quando do rosto dela, brotou o sorriso dos mais sinceros que alguém já poderia ter visto. Dento daquele instante, notava-se a tradução da felicidade. O sorriso que dizia que ali era o lugar dela, que dizia para não sair dali jamais, que dizia a besteira que cometera ao tentar não admitir que aquilo era tudo o que ela queria.
Enquanto isso, ele segurava a amante pela cintura. Segurava para que ela não fosse embora nunca mais, para que aquela chegada ao oásis continuasse pelo resto da vida. Era alívio, era gratidão, era felicidade, era amor.
Ninguém atrapalharia aquele momento. Eu, como bom escritor e amante dos amantes, quero fazer desse momento inesquecível para mim tanto quanto será inesquecível para eles.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O escritor e o dançarino

E as luzes se apagaram.
Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar!
O tom de penumbra teatral desenhava suas curvas túrgidas levemente delineadas pela luz azul que vinha das coxias. Cabeça baixa, corpo tenso, silêncio. Acendeu-se a luz branca.
Do centro do palco, levantou a cabeça lentamente, fixando os olhos em direção à platéia. O preto no branco desenhava sua sombra no chão de madeira.
Dentro de um súbito movimento, esticou a ponta dos dedos e se pôs a dançar. O som do piano soava apenas para acompanhar a atmosfera melancólica que existia entre nós dois. Para mim, só havia ele no palco e meus olhos alcançavam o movimento de cada pelo, cada membro, cada gesto. Minha cabeça não pensava em mais nada, era vácuo.
Oh, meu amor! Era a cena do apocalipse, do fim da humanidade.
Ao mesmo tempo em que seu corpo desenhava o mundo em sua mais perfeita ordem e sanidade, minha mente fotografava em temperaturas descontroladas e horas sem fim.
1, 2, 3... 4, 7, 42...
A ponta do dedo do seu pé tocava o chão e, nesse momento, vi você flutuar em um universo distante, obscuro, para onde eu sei que me chamava, e eu fui. Caminhei pausadamente até as escadas do palco e subi degrau por degrau fitando seus passos, até mesmo os mais discretos. Via seu corpo cada vez mais perto e a dança continuava, enchi os olhos de lágrimas e a dança continuava, topei seu ombro e a dança parou.
Você, ser dançante, que estava tão fora do meu alcance, tocou minha mão e sorriu, levando-me para longe, para os céus, para onde eu sempre quis estar. Segure-me em seus braços e viajaremos para onde não houver amanhã.
Apagaram as luzes.
Bravo, bravo!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pranto

Eu queria que lágrimas pudessem ser postas em papéis, pudessem ser descritas, ou que talvez fossem um vaso chinês que brilhasse sobre a mesa. Não. Lágrimas são apenas lágrimas. Não são ditas, não são escritas, não são ouvidas. Elas são apenas a constatação daquilo que não cabe mais dentro de ti, daquilo que parece insuportável – uma dor. Aquela dor que rasga subindo pelo peito, entra pela garganta, entrelaça-se e morre dentro da boca, abafada. Aquela dor que seria um grito se você tivesse forças para gritar. Quisera eu gritar agora...
Tristeza, alegria, desespero, cansaço, luta, amor – há sempre um bom motivo para berrar.
As minhas lágrimas morreram dentro do hálito quente e fizeram seus caminhos para o estômago acompanhadas do soluço.
Sou um vaso vazio.

domingo, 24 de outubro de 2010

Suicídio

Hoje cometi um crime – matei um homem.
Um homem que não sabia nada sobre medo nem sobre as ondas
Um homem que estava preso à inocência de acreditar na eternidade
Um homem que acabara de perder o último fio de sanidade mental
Um homem que trocava o corpo por um último gole desesperado de amor
Um homem que mesmo depois de morto, não soube aproveitar o instante
Um homem que morava dentro de outro homem
Um homem que perdeu a inocência aos seis anos de idade
Um homem que praticava a autocensura, honestamente, digamos
Um homem carente de afago
Um homem que apanhava e se humilhava
Um homem que via a esperança de dias melhores em cada olhar fraterno
Um homem que tinha medo do que os outros olhos viam nele
Um homem que sentia o sexo aflorar quando exposto a mentes conturbadas
Um homem que era capaz de matar alguém por orgulho, por amor
Matei-o. A partir de agora não há mais ordens, somos só nós dois. Eu e você, você e eu
Revivi-o. Algumas coisas nunca mudam, não morrem. Somos só nós dois. Eu e você, você e eu
Insano, bipolar, eu havia assassinado
Eu não matei ninguém

domingo, 10 de outubro de 2010

Desabafo

Hum. Iniciarei essa declaração dizendo que te amo. Exijo sinceridades.
Meu melhor amigo, passei tanto tempo esperando por esse momento. Caminhando sob sombras só pra olhar cada passo, sentir cada toque e ouvir cada palavra que saía de sua boca que eu, obsessivamente, fitava descontroladamente tanto quanto o movimento de sua língua ao alisar o fundo dos seus dentes, passando entre seus lábios em instantes de infinita lentidão. Era química, era química. Esqueci-me.
Como não notou que meus olhos te comiam em câmera lenta? Como não notou que enquanto você sorria, eu fazia cenas de filmes obscenos só entre nós dois? Entre as portas do banheiro, do quarto, do elevador. Era física, era física. Esqueci-me.
Diga-me, também, como fez pra causar tanta desilusão chamando-me de amigo quando tudo que eu queria era ser seu homem, sua saída, seu calmante. Como consegue ser tão cego? Como não pôde ver meus olhos virarem gelo ao encontrarem os seus? Era matemática, era matemática. Esqueci-me.
E eu, que morava nas sombras, vim à luz só pra ver se você olha pra mim, só pra ver se você me nota e me quer como eu sou. Mas isso não basta. Nosso tempo já passou, ficou nos livros, nas cadeiras de plástico, no seu quarto. Quem sabe um dia? Agora, só tenho guardado aquele momento em que você me abraçou chorando no meio da multidão, o momento em que as coisas começaram a diminuir o ritmo, o barulho começou a sumir, meus olhos fixaram-se no teto e meu coração desapontou num ritmo tão frenético quanto a minha vontade de beijar seus lábios. Não existia mais ninguém – só eu e você. Mas era amor, era amor. Esqueci-me.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nosso inferno

Sentei e fitei. Da minha varanda, apenas a imagem turva de mata virgem vinha de encontro aos meus olhos. Sentei na cadeirinha de madeira que se fixava entre a porta e a janela próxima à bancada, e fitei a escuridão da meia noite. Mata apenas. Pus os chinelos por de trás dos calcanhares e apoiei os braços na cadeira, enrijecendo os ombros numa compressão que ia até a vista quase nula. Existia apenas uma única luz que iluminava a portinha do humilde lar e adentrava por alguns poucos metros da mata – o suficiente pra causar uma curiosidade e pavor daquilo que a gente não conhece. Aliás, a ordem é inversa. O medo nada mais é que o desconhecido, não é mesmo?
Trouxera um plástico bolha pra passar o tempo. Nada melhor que a futilidade para matar o ócio e atiçar o medo. Enquanto estourava as bolhas de uma por uma, pensava na dor que sentia, ou ainda sinto, ao lembrar de coisas que nunca foram um dia. Pensava naquela tarde de domingo em que tinha passado horas com meus pais (antes de falecerem) estourando plástico bolha e comendo jacas suculentas no fundo da loja dos patrões. Oh, se soubesse...
Quando cresci, vi-me acordando todos os dias às quatro e meia da manhã, tomando banho de cuia (mais parecia gelo! Lembro do delírio que se passava no momento em que a água tocava minha face. Talvez fosse uma mistura de morte com pavor que acabava no alívio de perceber que a tortura já tinha chegado ao fim) e preparando o café da avó que beirava a cova. Enquanto me arrumava, olhava pela janela da minha antiga casa – Deus existe? Se sim, por favor, avise-o de que estamos precisando de uma urgentíssima visita aqui nesse morro que mais parece uma sentença de que estamos com os dias contados! – E depois saía pra trabalhar.
Tarefa fácil? Longe disso! Para aqueles que acham que eu saía com as chaves do meu carrinho humilde, porém funcional – uma bosta! Eu, pobre, nunca tive nem o direito de sonhar com esses sonhos de gente rica. Tinha era que pegar três ônibus pra chegar às seis na casa daquela vagabunda que me tratava feito cachorro pra ouvir reclamação de que não separei as blusas dela pela cor. Ah, se ela soubesse como é doce só ter três blusas para vestir! Não reclamaria nem metade do que reclama. É cremezinho para o cabelo, cremezinho para as mãozinhas, cremezinho pro seu cú, caralho! Cremezinho é receber mangação todo dia por ter cabelo de preto, cabelo que quebra a escova! Perdoem-me, não vim aqui reclamar dessa situação de decadente, não é mesmo? Afinal, fizeram-me engolir essa história de que sou pobre e preta porque quero e não me respeito. Você deve ser um deles, pateta.
O que ocorreu de fato foi que, neste dia, recebi a noticia de que a velha (a única que me restava e que, ultimamente, me dava mais gastos do que botava alguma coisa dentro de casa) tinha batido as botas. Pedi folga pra patroa e fui correndo pra casa ajeitar as contas da defunta. Maldita fuga da rotina!
Na pressa, tomei outro atalho. Não me atentei para o pior – o moço tava de olho no que eu tinha pra oferecer. Olhei prum lado, olhei pro outro – não vi ninguém a não ser o homem se aproximar de mim com os olhos vermelhos e com a faca na mão. Meu espanto percorreu dos dedões do pé até a espinha do rosto. Que hei de fazer, meu Deus? Corri o máximo que pude, mas que peste de rua infinita era aquela! Maldição, falhei. Ele foi mais rápido, aliás foi tudo tão rápido. Ali mesmo ele esbofeteou meu rosto com tanta força que caí de costas para o chão, apoiando-me com a mão para não que não quebrasse a cara. Tentei me levantar, mas o filha da puta apontou a faca no meu pescoço e me ameaçou. Disse-me para dar ou me mataria. Apresento-lhe um momento de grandessíssima indecisão. Não sou moça dessas vaidades de virgindade, mas de que adianta viver assim? Ser estuprada sabendo que aquele homem tá tão desesperado quanto eu, querendo acabar com esse rombo no estômago do filho e da mulher que já tá prenha de novo. Que ta fazendo isso comigo porque tá alucinado, drogado, vivendo num mundo paralelo pra ver se esquece esse daqui – esse que degenera a cada resto de hora! Ele queria era ter uma mulher que passasse cremezinho nos cotovelos e fizesse comidinha pra ele todo dia, mas cadê? Cadê a comida? Bem, eu virei a dispensa dele por alguns minutos.
Do mesmo jeito que ele veio, ele foi. Rápido. Eu que não ia. Sangrava tanto que não conseguia me erguer de dor. “Filha da puta! Filha da puta!”. Eu gritava no chão da rua, rastejando-me enquanto chorava desesperadamente encontrando o olhar das pessoas dizer: “Pretinha safada! Acho é pouco... É bom que morra, menos uma puta no mundo.” E entravam em seus castelos muito bem protegidos. Mas que porra de vida é essa? Oh, inquisição! Não sou bruxa, sou pobre! Tanto faz?! Queria voltar àquele momento do banho frio. Deus, como achava que era diferente morrer! Agora eu sabia, eu sabia! No último vômito de sangue, fechei os olhos.
Quando abri, ainda sentia meu corpo doer. Eu estava viva! Não me perguntem como, nem por que, nem se eu estou agradecida. Ainda não fiz minha cabeça sobre esse assunto. Mas eu ainda respirava. Sei que estava em alguma espécie de clínica psiquiátrica no meio do mato. Sei também que havia um plástico bolha ao meu lado. Sei também que havia uma portinha com uma cadeira. E é só isso que sei até agora. Não vejo meu futuro, não vejo uma saída, não cabe a mim o direito de sonhar, nem a ninguém, pois enquanto houver gente sem sonhar, esse mundo não há de ser um bom lugar pra se viver. E nunca será. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa vida. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa mentira, não é mesmo?