domingo, 5 de setembro de 2010

Para lembrar de olhar a janela em dias de chuva

No quintal, a miúda senhora estende as roupas molhadas do verão, estica lentamente os braços o máximo que consegue e tenta abrir os olhos enrugados enquanto o sol queima, arde. Trazendo-os de volta, toca superfícies lisas e úmidas para possuir, mesmo que por um singelo segundo, a lembrança de algum resquício de prazer.

Domingo azul, cachorro branco e preto, casa amarela, manga verde.

Ah, os domingos de festa! Todo primeiro dia da semana é especial: O som do carro, as bebidas em latas, o cigarro mal fumado, o programa de futilidades e baboseiras do cotidiano, o relógio que corre e destrói.

Todavia, especial apenas para aqueles que estendem roupas vendados. Para os que abrem os olhos, o domingo é apenas convenção, é a desesperada espera na janela em dias de chuva, é o pulso cortado todo dia 5, é o carro arrastando a chuva na avenida incansavelmente.

Enquanto isso, a velha sentava em frente ao espelho e alisava os longos cabelos como preparo para seu mais profundo sono. Estava linda, pronta. Tocou na faca, sorriu e abaixou a cabeça admirando o quanto tinha feito durante esses oitenta e qualquer número anos. Quando olhou de volta ao espelho, admirou-se com a lágrima que caía.

- Ora essa! Não vim para chorar nesse momento tão singular. Quero que me vejam como alguém que não encontro no espelho.

Levando a faca consigo, foi para debaixo da cama e assim o fez.

O preço da beleza, da poesia, acaba com aquela MPB dos anos 90 que te faz lembrar alguma coisa, algum espelho.

2 comentários:

  1. hm... reli a ultima linha muitas vezes, oq vc quer passar?

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  2. que alguns pequenos detalhes pessoais (no meu caso, a música) deixam os domingos mais bonitos porque você repara mais neles. Tem algo meio que especial... E não se sinta envergonhado pra comentar não, comente sempre! =) mas eu te conheço? =D

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