segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os outros

Dentro do coração de cada cidade, bem lá no fundo, amantes se beijam sob a chuva, sob a proteção da solidão de um apartamento apertado, suburbano. Ofegam e gemem, fazem a descoberta de uma sutil linha. Aquela que separa o amar do matar, a dor, do sexo.
- Me dá o isqueiro – Luís sussurrava calmamente enquanto Danilo revirava a gaveta que se estendia a dois palmos da cama.
- Toma, mas vai lá fora.
Levantando-se da cama apertada, Luís vestiu uma cueca folgada apenas para tapar o sexo. Dirigiu-se à varanda do humilde apartamento e acendeu o último cigarro da carteira. Apoiou os cotovelos na bancada e iniciou seu processo de silenciação. Enquanto a lua iluminava um pouco do cubo, o cigarro ia definhando. Queimava lenta e suavemente percorrendo todo o corpo branco. Silêncio? - Eu não sou fumaça. - Pegou as chaves, abriu a grade e foi à rua. Jogou fora o cigarro, caiu sob a chuva, fechando os olhos para sentir cada gota que caía sobre suas costas.
O silêncio não vinha. Vinha a guitarra digitada, a voz distorcida, o baixo, a música pausada, mas o silêncio...
Enquanto isso, Danilo criava um pouco de coragem pra enfrentar a preguiça de levantar da cama amassada, ainda mais com a dor que sentia. Que luta! Após longos trinta minutos, enfim de pé, caminhou pela casa à procura de algo que preenchesse algum vazio. Que vazio? Fome? Fome é só de comida? Querer desesperadamente ter um amor, ter um emprego estável e viajar nos fins de semana é fome?
Abriu a geladeira e tirou um suco velho para comer com torradas. Nada. A fome não passara. Difícil! Como era difícil!
Quando Luís voltou ao apartamento, Danilo trouxe-lhe uma toalha. Enxugava-se enquanto era despido. Levantava as pernas lentamente para o short sair. Danilo perguntava:
- Achou?
- Não. Você?
- Também nada. Quanto tempo isso vai durar? – E passando a mão na nuca do amante, Danilo olhava esperançosamente o relógio.
- Não sei ao certo. Talvez quando nossos corpos forem unidos no juízo final, ou até mesmo quando eu piscar os olhos.
- Piscar os olhos? – Nesse momento, deixou uma lágrima escapar. Afastava-se e via o risco de esperança murchar em múltiplos pedaços. – Entendo.
- Tente mais um pouco por nós, por você, por eles. É tudo que peço – e beijou-lhe os lábios salgados das lágrimas.
Encostaram os corpos nus e se amaram mesmo na cozinha. Amaram-se como nunca haviam antes. O gozo, os lábios, o calor, o afago. Tudo se confundia entre abraços, toques nos genitais com a ponta dos dedos, paredes brancas, o molho, o universo. Não há procriação.
E assim eles estão: enquanto não acham todas as respostas, brincam de Deus e fazem julgamentos sobre todo e qualquer ato que todo e qualquer ser humano faz ou não. Mas só eles.
Brincadeiras à parte, ainda sinto fome.

4 comentários:

  1. Me curvo às suas palavras... cigarros definharem e máscaras caírem no final sempre me encantaram...

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  2. o que há dentro de cada um de nós. A fome...
    desde que comecei a ler teu blog, sinto vontade de comentar, mas são sempre '...' q me saem, tocam na alma...

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  3. "Tudo se confundia entre abraços, toques nos genitais com a ponta dos dedos, paredes brancas, o molho, o universo. Não há procriação."

    Que coisa estranha que essas linhas causam em mim! Primeiro aquela tontura, um monte de sensações, tudo num rodamoinho e depois a grade constatação. O contraste do "universo" com o "não há procriação".

    Me atrevo a comparar essa ruptura com o momento da vida que a gente descobre que vai morrer.

    Cara, vc é um gênio. (L)

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  4. "- Não sei ao certo. Talvez quando nossos corpos forem unidos no juízo final, ou até mesmo quando eu piscar os olhos."

    Porque quase sempre vemos o sexo e o juizo final juntos? ahah
    Adorei, e já estou ansioso pra ler o proximo post ;)

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