terça-feira, 4 de maio de 2010

Degradado

Eram dois garotos – Pluto e Gabriel. Como melhores amigos, brincavam em um grandessíssimo jardim de rosas até o cair da noite. Corriam, sorriam, pulavam – sempre no plural – iam de encontro a todos e a tudo só para ter um pouco do momento que os mesmos julgavam sagrado. Sentiam o gosto da infância, o gosto mais doce de todos.

Certa manhã de domingo, Pluto caiu na grama que aterrava o jardim, fatigado. Gabriel, ao notar a estranheza do amigo, sentou-se próximo e segurou-lhe a mão.

- Eu estou aqui, nada vai lhe acontecer.

Em um único impulso, Pluto beijou os lábios de seu melhor companheiro. O anjo, apesar de já ter feito aquilo antes, sentiu-se estranhamente assustado com o ímpeto do amigo e levantou-se fugindo da deliciosa sensação do proibido.

Passaram-se os meses e as brincadeiras ficavam mais curtas, viravam beijos e abraços, mãos perdidas, desejo, carência, lágrimas. Um dia, Pluto forçara o amante a comer as cerejas e, por mais que Gabriel não gostasse das cerejas, fez por não saber exatamente o que aquilo significava. Assim ficaram durante anos, o anjo comia e o outro apenas assistia, com imensa satisfação.

- Se comer a cereja inteira, sem mastigar, dou-lhe um beijo! – Pluto falava, Gabriel fazia.

O anjinho ia perdendo a asa aos poucos. Ia aperfeiçoando o gosto da cereja na boca e devorando com tanto prazer que, com certeza, tornara-se a cria perfeita de Pluto. Ele não fazia por mal, não queria mesmo sentir satisfação ao ver aquele menino - que um dia fora anjo - devorar as cerejas com tanto prazer. Mas sentia. Sentia e não pretendia parar com aquilo tão cedo. Era carência, precisava ver aquilo, precisava encostar suas cerejas nos límpidos lábios inocentes de alguém.

Certa noite, Gabriel viu o seu eterno amante dar as cerejas para outro garoto e para outro, para outro e todos comiam as frutas vermelhas com a mesma satisfação e devoção que ele. Pluto parecia outra pessoa, alguém possuído por um espírito mal feitor, que apenas buscava satisfação nos olhos daquelas crianças.

O garoto correu desesperadamente ao encontro do seu amante.

- Por que faz isso, demônio?

- Ora, não seja tolo. Acreditavas que eu pudesse te amar? Crescestes, não serve de nada! Saia já daqui do meu jardim!

Desesperadamente, Gabriel correu por entre as rosas que haviam murchado e machucavam-lhe como nunca haviam machucado antes. Os espinhos arrancavam-lhe pedaços de carne e por dentro, sentia os espinhos perfurando o que restava de seu coração. Lembrava das cerejas e sentia nojo ao lembrar o delicioso sabor que elas tinham, sentia nojo ao lembrar que ainda gostava daquele gosto. Corria.

Remorso para as asas que havia doado tão solenemente ao seu querido Pluto.

Ao sair do jardim, pessoas assistiam. Todas no escuro, rostos indefinidos, pedindo perdão pelos pecados daquela criança. Sim, aquela que um dia fora anjo. Seguravam foices e chamas.

Nu, o menino tentava enxugar as lágrimas do rosto, mas essas já tinham tomado todo o seu corpo e toda sua alma. Ouviu a voz de alguém muito pequeno falar:

- Lembre-se que um dia já teve asas e pôde voar. Doastes àquele que te apresentou as cerejas e elas, as asas, nunca mais voltarão.

Fechou os olhos sem saber onde estaria ao acordar.

Caído, via anjos e demônios.