domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sonho, talvez

Dez minutos. Em dez minutos ela sairia pra comprar o pão que a mãe pedira. Deitada no sofá, rosto oleoso, sol das cinco, rotina. Dez minutos, Quinze, Vinte. Levanta e põe as chinelas, desce as escadas de seu apartamento.

Com o dinheiro na mão, ela se põe a andar. Por que era tão difícil caminhar naquela mesma calçada de sempre? Por que era tão árduo o pensamento de “O pra sempre nunca acaba”? Depois de tanto sofrer, tanto amar, tinha que encontrar sua felicidade numa calçada imunda, pela qual passava todos os dias pra comprar o pão? Pão este que era o responsável por mantê-la viva a cada dia. E o que é estar vivo? Viver seria o mesmo que sofrer? Valia mesmo a pena andar por todo aquele chão pra continuar sofrendo? E se ela um dia parasse e não fosse mais comprar aquele pão que a mantinha respirando todos os dias? Certamente, seu pensamento seria elevado aos céus e todo o martírio teria um fim.

Acordou. Volta ao chão imundo de sempre, encontrou-se na padaria.

Na fila, a menina olha para o ventilador como se aquilo fosse algo tão extraordinário, sem explicação. E ela apenas olha, não pensa em nada, em nada; apenas espera ser chamada e pedir os sete pães franceses quentinhos. Seria essa a mesma sensação de morrer?

Como o despertar de um novo dia, sua rotina foi quebrada. Seus olhos, os olhos dele. Foi um só encontro, um só momento. Apaixonara-se à primeira vista? Certamente, no mundo dela isso não mais existia. Mas qual o nome do sentimento que deixa as pernas bambas, o sorriso amarelo, o rosto oleoso, o coração saltitando e os olhos cheios de lágrimas? Amor, esse era o nome.

Mas um padeiro? Ela sonhava com um doutor, um que a pegasse para passear em um cavalo branco. Ah! Isso não mais importava. Para ela aquele era seu príncipe, seu doutor. E ela sabia que era amor, ele também.

No outro dia, ela já não ia mais pensando no martírio.

Acabaram juntos, como num conto de fadas. Mas não do jeito que ela sempre pensou, no jeito que ela sempre quis. Foi tudo às avessas, no simples fato de comprar aquilo que a mantinha viva.

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