sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Promessa de um junkie

Ele me olhava com cara de quem queria mais, e eu sempre tinha mais. Aproximava-me do rosto dele e beijava sua testa que se cobria de suor. Olhei para sua íris, sorri e me afastei carregando meus braços da frente do meu corpo para minha nuca.
Deitei no banco do carro, nu, enquanto ele, vestido apenas de uma camisa, olhava pelo vidro embaçado do carro. Observava o movimento da rua, pensativo, estático.
- Tá com medo? – perguntei enquanto colocava minhas pernas sobre a coxa dele e ele passava o braço por trás do banco do carro.
- Um pouco. Nunca tinha feito nada parecido num lugar tão aberto... Meio insano. Ainda mais com um menor. Me sinto tão errado, violador das leis. Você não?
- Não, só nostálgico. Era assim que me sentia com ele, você sabe quem...
- Você tá me comparando? É isso? – tirou minhas pernas da coxa dele e pegou a cueca para vestir-se, não escondia a pequena raiva que seus olhos denunciavam ao olhar para o chão bagunçado do carro, ocupado com as calças.
- Não, eu não to falando em doenças, nem abuso. Eu to falando do jeito como eu me sinto quando to aqui com você... Não se culpe, eu já tenho 17, não 12.
- Cala a boca, cara. Não me lembra daquilo que eu não posso lembrar agora. E veste suas roupas, você tem que estar em casa antes das 10.
- Você ta me usando? É isso? ... Eu já deveria saber, seu filha da puta. Você é igual a ele. – Peguei minhas roupas e passei pro banco da frente para me vestir.
- Eu acho que você não entendeu – ele encostou o queixo no banco, deixando sua boca muito próxima ao meu ouvido – Eu amo você, pouco importa o que esse cara fez ou deixou de fazer contigo. Se existe alguém aqui evocando algum passado, é você e não eu. Por favor, deixa isso em p...
- E você acha que é fácil? – tive que interrompê-lo porque não suportava a ideia de ouvir tudo aquilo que eu queria tanto ouvir. Prendia minhas palavras no hálito, segurava minhas lágrimas na dor de tudo que já havia passado. Fixei os olhos na janela.
- Eu sei que não é fácil, mas eu preciso tentar. Você precisa tentar...
- Cala a boca e me leva pra casa logo, vai. – acendi o cigarro que estava no porta luvas e abri a janela do carro enquanto ele dava a partida.
10 minutos de rock and roll, fumaça, óculos escuros e velocidade.
No meu segundo cigarro:
- Pára de fumar... Se sua mãe descobre...
- Ela vai me bater? Oh, por favor... Ela sabia o que aquele cara fazia comigo e nunca falou nem fez nada, agora quer dar uma de santa por causa de um cigarro? Acho que não, hein?
As estradas iam virando círculos e retas, cores e palhaços, beijos e afagos, choro e desespero. E tudo ia se desconstruindo na reconstrução do passado perdido, da inocência interrompida.
- Cara, não to bem... – e a cabeça doía tanto que não via mais cor alguma se não o preto e o branco.
- Ei, ei... Fica comigo, cara. Não me deixe aqui. Olha pra mim! Não, não... – e a voz ia sumindo, e ia tudo girando... e minha infância, cadê? Minha inocência! Filha da puta, filha da puta!
Em um único impulso, puxei o volante para o meu lado e o carro encontrou o poste.
Giro, grito, boca, dente, giro, vidro, sangue, giro, cinto, cigarro, giro, morte, fim.
Acordei assustado, não conseguia parar de chorar. Que merda de pesadelo!
- É assim que tem que ser, é assim que tem que ser...
E eu já não era mais nada daquilo que um dia quis ser. Eu não sabia que eu não podia, podia?
E foi assim que eu matei meus sonhos.
Matei?
Ou mataram?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Manual de sobre vivência

Calado, sentido.
1 - Não sinta, não chore, não ame. Isso não é um hospício, isso é a vida.
2 - Você não tem o direito de guardar recordações, principalmente as ruins.
3 - Você não tem motivos para chorar, sua vida está divinamente em ordem, não vê?
4 - Se estiver custando a acreditar que pessoas vão embora e se perdem na neblina da eternidade, saia daqui. Você não é bem vindo.
5 - Não viva, sorria. Ah, sorria para esconder sua face fétida, sua alma podre, seu coração sujo.
6 - Lembre que problemas não são nada perto da felicidade que a vida nos proporciona. Tudo bem que você seja feliz à custa dos outros. Se hoje ele é seu amigo, amanhã ele não será. E de melhores amigos, o mundo está cheio. A vida é sua e você está sozinho nisso tudo, não aprofunde suas relações – é o pior de todos os crimes.
Mas eu nunca fui de seguir regras, nem leio manuais.
Eu amo almas porque amo, não porque quero ninar meu ego.
Se esse é o sentido da palavra amizade, eu aprendi errado.
E você?
Eu acredito em palavras e fonemas, e guardo comigo todos os sorrisos sinceros.
Perdão se me enganei. Eu não quero me satisfazer.
Tudo que peço é que não me ensine a sobreviver, ensine-me a morrer a cada dia.

sábado, 20 de novembro de 2010

Alquimia

Os ponteiros do relógio pararam quando ouviram o elevador fechar. Logo em seguida, seu rosto sumiu enquanto seus lábios diziam que me amava, e eu sentia que ali seria a última vez que teria seu rosto para mim. O elevador descia os andares de seu apartamento, e minha mente subia pelas escadas até o oitavo andar. Pra te beijar, te tocar e te guardar dentro de mim.
Mas o fim chegou, o elevador parou e o tempo correu de trás para frente.
Fiz um livro de comédia dramática sobre nós dois dentro do espaço sobre o tempo, velocidade.
Esqueci-me que o tempo havia parado quando cheguei ao chão e fui levando meu barco no ritmo da maresia, da brisa suave que tocava o sino de todas as manhãs nebulosas.
Fui interrompido quando vi seus lábios me dizerem que beijavam outros.
Entrei na pior das tormentas quando vi seus lábios sorrindo com um outro alguém.
Caí no mar da noite quando nossos olhos se encontraram e vi você me dizer que ainda me amava, que não estava sendo sincero.
Muito tarde, muito tarde.
O que farei com a tristeza que o tempo me traz?
Tristeza é solúvel em álcool.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Vitamina

O café, o piano, a janela, o fim de tarde, os pássaros e minha mente. O silêncio do fim do sol no céu multicolorido desenhava a minha consciência, que oscilava entre o ir e o ficar. O piano melancólico rogava para que eu ficasse, que ali era um árduo caminho, mas no fim, tudo acabaria como eu sempre sonhei um dia. O sol dizia para eu ir. Ir de encontro aos pássaros que voavam em liberdade, em bandos pretos rasgando o céu da tarde rosa, colecionando os sorrisos honestos das meninas do parque, dos amantes na roda gigante, da felicidade da volta, do fim do final.
Desculpa, meu piano. Não posso manter minha mente naquilo que já não existe dentro de mim, naquilo que me machuca a todo instante, porém nunca deixarei de te carregar.
Desculpa, sol. Não posso seguir o caminho da liberdade quando todos nós estamos presos a um inferno solar, digitado. Entretanto, carregarei comigo aquele raio que atingiu minha retina. Sim, eu aceito o novo.
Quero constituir-me do velho e do novo, do triste e do alegre, que é para não faltar poesia, não faltar alegria, nem tristeza. Que é pra não faltar sorriso, não faltarem lágrimas, não faltar amizade, muito menos amor.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Boa Sorte

Era pra eu ter marcado a sua vida, não você a minha.
Eu ia e vinha como o vento, como a areia que alisa o rosto no fim da tarde.
Você veio, você começou, você terminou.
Espera. Era para eu ter ido, começado e terminado, não?
Às avessas, como sempre.
Seguiremos caminhos opostos, afastaremos nossos corações, mas cantaremos sempre a mesma canção. Aquela canção que soava nas escadas dos passos apressados e sorrisos envergonhados. Aquela canção afogada num suspiro tímido, na bochecha rosada, no gemido censurado.
Era pra você ter marcado a minha vida, não eu a sua.
Estamos marcados, amigo.
Boa sorte.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sob a lua

Dentro de uma figura distante, pintava-se com a mais bela das aquarelas uma cena que punha o amor em evidência, em posição de luta. Óleo sobre a tela, eles sentavam no banco de uma praça banhada ao luar. Ele a abraçava por trás e abaixava a cabeça sobre seu ombro enquanto ela olhava o horizonte numa cena estática. Aquela dança atípica sobre as estrelas despertava o amor mais puro que existia dentro de cada pessoa que os vissem, como o meu. Mas a explosão não coube na tela, e os personagens começaram o movimento.
Ela pôs a mão sobre a cabeça dele e iniciou um cafuné interminável, inalcançável. Seu cabelo caía sobre o rosto, cobrindo seus olhos e metade da boca. A constatação do encontro de duas almas feitas uma para a outra aconteceu quando do rosto dela, brotou o sorriso dos mais sinceros que alguém já poderia ter visto. Dento daquele instante, notava-se a tradução da felicidade. O sorriso que dizia que ali era o lugar dela, que dizia para não sair dali jamais, que dizia a besteira que cometera ao tentar não admitir que aquilo era tudo o que ela queria.
Enquanto isso, ele segurava a amante pela cintura. Segurava para que ela não fosse embora nunca mais, para que aquela chegada ao oásis continuasse pelo resto da vida. Era alívio, era gratidão, era felicidade, era amor.
Ninguém atrapalharia aquele momento. Eu, como bom escritor e amante dos amantes, quero fazer desse momento inesquecível para mim tanto quanto será inesquecível para eles.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O escritor e o dançarino

E as luzes se apagaram.
Senhoras e senhores, o espetáculo vai começar!
O tom de penumbra teatral desenhava suas curvas túrgidas levemente delineadas pela luz azul que vinha das coxias. Cabeça baixa, corpo tenso, silêncio. Acendeu-se a luz branca.
Do centro do palco, levantou a cabeça lentamente, fixando os olhos em direção à platéia. O preto no branco desenhava sua sombra no chão de madeira.
Dentro de um súbito movimento, esticou a ponta dos dedos e se pôs a dançar. O som do piano soava apenas para acompanhar a atmosfera melancólica que existia entre nós dois. Para mim, só havia ele no palco e meus olhos alcançavam o movimento de cada pelo, cada membro, cada gesto. Minha cabeça não pensava em mais nada, era vácuo.
Oh, meu amor! Era a cena do apocalipse, do fim da humanidade.
Ao mesmo tempo em que seu corpo desenhava o mundo em sua mais perfeita ordem e sanidade, minha mente fotografava em temperaturas descontroladas e horas sem fim.
1, 2, 3... 4, 7, 42...
A ponta do dedo do seu pé tocava o chão e, nesse momento, vi você flutuar em um universo distante, obscuro, para onde eu sei que me chamava, e eu fui. Caminhei pausadamente até as escadas do palco e subi degrau por degrau fitando seus passos, até mesmo os mais discretos. Via seu corpo cada vez mais perto e a dança continuava, enchi os olhos de lágrimas e a dança continuava, topei seu ombro e a dança parou.
Você, ser dançante, que estava tão fora do meu alcance, tocou minha mão e sorriu, levando-me para longe, para os céus, para onde eu sempre quis estar. Segure-me em seus braços e viajaremos para onde não houver amanhã.
Apagaram as luzes.
Bravo, bravo!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pranto

Eu queria que lágrimas pudessem ser postas em papéis, pudessem ser descritas, ou que talvez fossem um vaso chinês que brilhasse sobre a mesa. Não. Lágrimas são apenas lágrimas. Não são ditas, não são escritas, não são ouvidas. Elas são apenas a constatação daquilo que não cabe mais dentro de ti, daquilo que parece insuportável – uma dor. Aquela dor que rasga subindo pelo peito, entra pela garganta, entrelaça-se e morre dentro da boca, abafada. Aquela dor que seria um grito se você tivesse forças para gritar. Quisera eu gritar agora...
Tristeza, alegria, desespero, cansaço, luta, amor – há sempre um bom motivo para berrar.
As minhas lágrimas morreram dentro do hálito quente e fizeram seus caminhos para o estômago acompanhadas do soluço.
Sou um vaso vazio.

domingo, 24 de outubro de 2010

Suicídio

Hoje cometi um crime – matei um homem.
Um homem que não sabia nada sobre medo nem sobre as ondas
Um homem que estava preso à inocência de acreditar na eternidade
Um homem que acabara de perder o último fio de sanidade mental
Um homem que trocava o corpo por um último gole desesperado de amor
Um homem que mesmo depois de morto, não soube aproveitar o instante
Um homem que morava dentro de outro homem
Um homem que perdeu a inocência aos seis anos de idade
Um homem que praticava a autocensura, honestamente, digamos
Um homem carente de afago
Um homem que apanhava e se humilhava
Um homem que via a esperança de dias melhores em cada olhar fraterno
Um homem que tinha medo do que os outros olhos viam nele
Um homem que sentia o sexo aflorar quando exposto a mentes conturbadas
Um homem que era capaz de matar alguém por orgulho, por amor
Matei-o. A partir de agora não há mais ordens, somos só nós dois. Eu e você, você e eu
Revivi-o. Algumas coisas nunca mudam, não morrem. Somos só nós dois. Eu e você, você e eu
Insano, bipolar, eu havia assassinado
Eu não matei ninguém

domingo, 10 de outubro de 2010

Desabafo

Hum. Iniciarei essa declaração dizendo que te amo. Exijo sinceridades.
Meu melhor amigo, passei tanto tempo esperando por esse momento. Caminhando sob sombras só pra olhar cada passo, sentir cada toque e ouvir cada palavra que saía de sua boca que eu, obsessivamente, fitava descontroladamente tanto quanto o movimento de sua língua ao alisar o fundo dos seus dentes, passando entre seus lábios em instantes de infinita lentidão. Era química, era química. Esqueci-me.
Como não notou que meus olhos te comiam em câmera lenta? Como não notou que enquanto você sorria, eu fazia cenas de filmes obscenos só entre nós dois? Entre as portas do banheiro, do quarto, do elevador. Era física, era física. Esqueci-me.
Diga-me, também, como fez pra causar tanta desilusão chamando-me de amigo quando tudo que eu queria era ser seu homem, sua saída, seu calmante. Como consegue ser tão cego? Como não pôde ver meus olhos virarem gelo ao encontrarem os seus? Era matemática, era matemática. Esqueci-me.
E eu, que morava nas sombras, vim à luz só pra ver se você olha pra mim, só pra ver se você me nota e me quer como eu sou. Mas isso não basta. Nosso tempo já passou, ficou nos livros, nas cadeiras de plástico, no seu quarto. Quem sabe um dia? Agora, só tenho guardado aquele momento em que você me abraçou chorando no meio da multidão, o momento em que as coisas começaram a diminuir o ritmo, o barulho começou a sumir, meus olhos fixaram-se no teto e meu coração desapontou num ritmo tão frenético quanto a minha vontade de beijar seus lábios. Não existia mais ninguém – só eu e você. Mas era amor, era amor. Esqueci-me.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nosso inferno

Sentei e fitei. Da minha varanda, apenas a imagem turva de mata virgem vinha de encontro aos meus olhos. Sentei na cadeirinha de madeira que se fixava entre a porta e a janela próxima à bancada, e fitei a escuridão da meia noite. Mata apenas. Pus os chinelos por de trás dos calcanhares e apoiei os braços na cadeira, enrijecendo os ombros numa compressão que ia até a vista quase nula. Existia apenas uma única luz que iluminava a portinha do humilde lar e adentrava por alguns poucos metros da mata – o suficiente pra causar uma curiosidade e pavor daquilo que a gente não conhece. Aliás, a ordem é inversa. O medo nada mais é que o desconhecido, não é mesmo?
Trouxera um plástico bolha pra passar o tempo. Nada melhor que a futilidade para matar o ócio e atiçar o medo. Enquanto estourava as bolhas de uma por uma, pensava na dor que sentia, ou ainda sinto, ao lembrar de coisas que nunca foram um dia. Pensava naquela tarde de domingo em que tinha passado horas com meus pais (antes de falecerem) estourando plástico bolha e comendo jacas suculentas no fundo da loja dos patrões. Oh, se soubesse...
Quando cresci, vi-me acordando todos os dias às quatro e meia da manhã, tomando banho de cuia (mais parecia gelo! Lembro do delírio que se passava no momento em que a água tocava minha face. Talvez fosse uma mistura de morte com pavor que acabava no alívio de perceber que a tortura já tinha chegado ao fim) e preparando o café da avó que beirava a cova. Enquanto me arrumava, olhava pela janela da minha antiga casa – Deus existe? Se sim, por favor, avise-o de que estamos precisando de uma urgentíssima visita aqui nesse morro que mais parece uma sentença de que estamos com os dias contados! – E depois saía pra trabalhar.
Tarefa fácil? Longe disso! Para aqueles que acham que eu saía com as chaves do meu carrinho humilde, porém funcional – uma bosta! Eu, pobre, nunca tive nem o direito de sonhar com esses sonhos de gente rica. Tinha era que pegar três ônibus pra chegar às seis na casa daquela vagabunda que me tratava feito cachorro pra ouvir reclamação de que não separei as blusas dela pela cor. Ah, se ela soubesse como é doce só ter três blusas para vestir! Não reclamaria nem metade do que reclama. É cremezinho para o cabelo, cremezinho para as mãozinhas, cremezinho pro seu cú, caralho! Cremezinho é receber mangação todo dia por ter cabelo de preto, cabelo que quebra a escova! Perdoem-me, não vim aqui reclamar dessa situação de decadente, não é mesmo? Afinal, fizeram-me engolir essa história de que sou pobre e preta porque quero e não me respeito. Você deve ser um deles, pateta.
O que ocorreu de fato foi que, neste dia, recebi a noticia de que a velha (a única que me restava e que, ultimamente, me dava mais gastos do que botava alguma coisa dentro de casa) tinha batido as botas. Pedi folga pra patroa e fui correndo pra casa ajeitar as contas da defunta. Maldita fuga da rotina!
Na pressa, tomei outro atalho. Não me atentei para o pior – o moço tava de olho no que eu tinha pra oferecer. Olhei prum lado, olhei pro outro – não vi ninguém a não ser o homem se aproximar de mim com os olhos vermelhos e com a faca na mão. Meu espanto percorreu dos dedões do pé até a espinha do rosto. Que hei de fazer, meu Deus? Corri o máximo que pude, mas que peste de rua infinita era aquela! Maldição, falhei. Ele foi mais rápido, aliás foi tudo tão rápido. Ali mesmo ele esbofeteou meu rosto com tanta força que caí de costas para o chão, apoiando-me com a mão para não que não quebrasse a cara. Tentei me levantar, mas o filha da puta apontou a faca no meu pescoço e me ameaçou. Disse-me para dar ou me mataria. Apresento-lhe um momento de grandessíssima indecisão. Não sou moça dessas vaidades de virgindade, mas de que adianta viver assim? Ser estuprada sabendo que aquele homem tá tão desesperado quanto eu, querendo acabar com esse rombo no estômago do filho e da mulher que já tá prenha de novo. Que ta fazendo isso comigo porque tá alucinado, drogado, vivendo num mundo paralelo pra ver se esquece esse daqui – esse que degenera a cada resto de hora! Ele queria era ter uma mulher que passasse cremezinho nos cotovelos e fizesse comidinha pra ele todo dia, mas cadê? Cadê a comida? Bem, eu virei a dispensa dele por alguns minutos.
Do mesmo jeito que ele veio, ele foi. Rápido. Eu que não ia. Sangrava tanto que não conseguia me erguer de dor. “Filha da puta! Filha da puta!”. Eu gritava no chão da rua, rastejando-me enquanto chorava desesperadamente encontrando o olhar das pessoas dizer: “Pretinha safada! Acho é pouco... É bom que morra, menos uma puta no mundo.” E entravam em seus castelos muito bem protegidos. Mas que porra de vida é essa? Oh, inquisição! Não sou bruxa, sou pobre! Tanto faz?! Queria voltar àquele momento do banho frio. Deus, como achava que era diferente morrer! Agora eu sabia, eu sabia! No último vômito de sangue, fechei os olhos.
Quando abri, ainda sentia meu corpo doer. Eu estava viva! Não me perguntem como, nem por que, nem se eu estou agradecida. Ainda não fiz minha cabeça sobre esse assunto. Mas eu ainda respirava. Sei que estava em alguma espécie de clínica psiquiátrica no meio do mato. Sei também que havia um plástico bolha ao meu lado. Sei também que havia uma portinha com uma cadeira. E é só isso que sei até agora. Não vejo meu futuro, não vejo uma saída, não cabe a mim o direito de sonhar, nem a ninguém, pois enquanto houver gente sem sonhar, esse mundo não há de ser um bom lugar pra se viver. E nunca será. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa vida. Apesar de tudo, nosso inferno é uma boa mentira, não é mesmo?

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Os outros

Dentro do coração de cada cidade, bem lá no fundo, amantes se beijam sob a chuva, sob a proteção da solidão de um apartamento apertado, suburbano. Ofegam e gemem, fazem a descoberta de uma sutil linha. Aquela que separa o amar do matar, a dor, do sexo.
- Me dá o isqueiro – Luís sussurrava calmamente enquanto Danilo revirava a gaveta que se estendia a dois palmos da cama.
- Toma, mas vai lá fora.
Levantando-se da cama apertada, Luís vestiu uma cueca folgada apenas para tapar o sexo. Dirigiu-se à varanda do humilde apartamento e acendeu o último cigarro da carteira. Apoiou os cotovelos na bancada e iniciou seu processo de silenciação. Enquanto a lua iluminava um pouco do cubo, o cigarro ia definhando. Queimava lenta e suavemente percorrendo todo o corpo branco. Silêncio? - Eu não sou fumaça. - Pegou as chaves, abriu a grade e foi à rua. Jogou fora o cigarro, caiu sob a chuva, fechando os olhos para sentir cada gota que caía sobre suas costas.
O silêncio não vinha. Vinha a guitarra digitada, a voz distorcida, o baixo, a música pausada, mas o silêncio...
Enquanto isso, Danilo criava um pouco de coragem pra enfrentar a preguiça de levantar da cama amassada, ainda mais com a dor que sentia. Que luta! Após longos trinta minutos, enfim de pé, caminhou pela casa à procura de algo que preenchesse algum vazio. Que vazio? Fome? Fome é só de comida? Querer desesperadamente ter um amor, ter um emprego estável e viajar nos fins de semana é fome?
Abriu a geladeira e tirou um suco velho para comer com torradas. Nada. A fome não passara. Difícil! Como era difícil!
Quando Luís voltou ao apartamento, Danilo trouxe-lhe uma toalha. Enxugava-se enquanto era despido. Levantava as pernas lentamente para o short sair. Danilo perguntava:
- Achou?
- Não. Você?
- Também nada. Quanto tempo isso vai durar? – E passando a mão na nuca do amante, Danilo olhava esperançosamente o relógio.
- Não sei ao certo. Talvez quando nossos corpos forem unidos no juízo final, ou até mesmo quando eu piscar os olhos.
- Piscar os olhos? – Nesse momento, deixou uma lágrima escapar. Afastava-se e via o risco de esperança murchar em múltiplos pedaços. – Entendo.
- Tente mais um pouco por nós, por você, por eles. É tudo que peço – e beijou-lhe os lábios salgados das lágrimas.
Encostaram os corpos nus e se amaram mesmo na cozinha. Amaram-se como nunca haviam antes. O gozo, os lábios, o calor, o afago. Tudo se confundia entre abraços, toques nos genitais com a ponta dos dedos, paredes brancas, o molho, o universo. Não há procriação.
E assim eles estão: enquanto não acham todas as respostas, brincam de Deus e fazem julgamentos sobre todo e qualquer ato que todo e qualquer ser humano faz ou não. Mas só eles.
Brincadeiras à parte, ainda sinto fome.

My brother

Mistura engraçada que é! Reggae com Arrocha!
Eu mesmo não troco a poesia por nada. Estávamos no carro, três de nós.
O mais velho tratava da ressaca do dia anterior no banco da frente. O do meio saíra do carro para tomar um pouco de vento no rosto enquanto as meninas não chegavam. Já o mais novo esticava as pernas no banco de trás, deitado, tocando o teto do carro com a ponta dos dedos dos pés, ouvindo atentamente a música que dizia calma e claramente “My brother”.

Acima do meu amor

Tu amas, única e solenemente
A imagem que encontras no espelho
A imagem denegrida do aborto
Daquilo que tu defendes como certo.

É o receio de não quebrar o seu colar
Que tanto brilha os diamantes
Mas por dentro é universo podre, parasitário!

Esquece-te de mim enquanto houver cólera
Pois na ausência, apenas restará a arma
A faca com a qual te matarei, ingrato!

Qual?! Amor? Passas longe de usar tamanha ternura diante de outro ser que não seja teu próprio reflexo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Para lembrar de olhar a janela em dias de chuva

No quintal, a miúda senhora estende as roupas molhadas do verão, estica lentamente os braços o máximo que consegue e tenta abrir os olhos enrugados enquanto o sol queima, arde. Trazendo-os de volta, toca superfícies lisas e úmidas para possuir, mesmo que por um singelo segundo, a lembrança de algum resquício de prazer.

Domingo azul, cachorro branco e preto, casa amarela, manga verde.

Ah, os domingos de festa! Todo primeiro dia da semana é especial: O som do carro, as bebidas em latas, o cigarro mal fumado, o programa de futilidades e baboseiras do cotidiano, o relógio que corre e destrói.

Todavia, especial apenas para aqueles que estendem roupas vendados. Para os que abrem os olhos, o domingo é apenas convenção, é a desesperada espera na janela em dias de chuva, é o pulso cortado todo dia 5, é o carro arrastando a chuva na avenida incansavelmente.

Enquanto isso, a velha sentava em frente ao espelho e alisava os longos cabelos como preparo para seu mais profundo sono. Estava linda, pronta. Tocou na faca, sorriu e abaixou a cabeça admirando o quanto tinha feito durante esses oitenta e qualquer número anos. Quando olhou de volta ao espelho, admirou-se com a lágrima que caía.

- Ora essa! Não vim para chorar nesse momento tão singular. Quero que me vejam como alguém que não encontro no espelho.

Levando a faca consigo, foi para debaixo da cama e assim o fez.

O preço da beleza, da poesia, acaba com aquela MPB dos anos 90 que te faz lembrar alguma coisa, algum espelho.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

No Casulo

Tornar-se-á ato vergonhoso
Admitir que se ama todo o corpo
Vetar-me-ei de desejos os quais
Todos possuem, mas poucos admitem.

Tornar-me-ei gelo que arde no frio
Apenas como casca, como capa
Há ainda, percorrendo em minhas veias,
Grande fogo que queima de vontade

Vontade de sair.

Cafuné

Deitados numa rede, queria contar-te a minha vida. Aquela que nunca foi, um dia, digna de um final hollywoodiano. Não quero, assim, me lamentar. Desejo apenas que aprenda comigo todos os espinhos desta nova vida que descobristes.

Quero que aprenda que o amor pertence aos loucos. Ai, os loucos! Acabam assim: protegendo um pedaço de carne como se esse fosse o resto do último pedaço de paz.

Cuidado ao dobrar a esquina, ao atravessar a rua. Erra enquanto eu ainda nutrir essa desesperada esquizofrenia por ti, pois ao encontrar-me com um novo amor, menino, ficarás sozinho nesta insanidade abstrata. Só como um filhote recém-nascido sem sua mãe para acompanhar-lhe os passos.

Enfim, peço que não te esqueces daquilo que há dentro de ti, nem do que há dentro de mim, pois a mim só resta a vaga esperança de um ponto final nos “nós” paradoxais.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Para Noia

Pensar em cortar em pedaços
Toda a sonolência rotineira.

Traga-me o grito das manhãs
Que desperta do tédio, do cansaço
Traga-me dois copos de água
Um dedo de vida, três pesadelos.

E essa confusão, é só ilusão
É só o temor de pensar que
Um dia tudo virá e passará
(Entre os meus dedos)
Como lâminas suaves que decepam
Todo o amarelo de meus dentes.

Amarelo sai
Verde entra.

Arrombaram a porta dos fundos
E eu sei que você chegou.

Grosso modo

Identidades múltiplas, mente conflituosa, aparência contraditória.

Assumir-se virou um fardo de causa e conseqüência.

Raridades talvez não sejam mais o foco de alguns. Querer o arquetípico, padrão.
Pena de mim que sou poeta e tenho palavras que sejam só minhas.

Gostar de preencher páginas em branco, ter medo de aceitar o novo e perder aquela essência que é guardada a sete chaves. A fraqueza é tanta que preciso de rascunhos para lembrar de puxar constantemente as pelancas murchas do dedo.

Lembrar de não esquecer. Esquecer de lembrar. Lembrar de, ao lembrar, não chorar. Esquecer de, ao chorar, lembrar da falta que faz. A falta do que nunca foi um dia. Um dia marcado, porém fútil.

Esquecer da solidão que dá quando ninguém entende a dor que é lembrar de buscar a eternidade no momento em que demos as mãos.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Bom Dia

Esse é o momento em que escuto cada ruído como se fossem canções de ninar e adormeço no momento efêmero de acordar. O momento em que cada cheiro se transforma em perfumes do campo, e minha mente percorre todos os degraus de sua escada.
Encontro você.
Olhando-me como uma criança que chora por carinho e rejeita a minha mão que um dia te afagou.
A criança sou eu, não você.
Eu molhado da chuva, você em poucas roupas, eu bato em sua porta, você abre. Tocamos os lábios. É bom fingir que nada aconteceu, fingir que não senti vontade de invadir sua casa enquanto você dormia, arruinar sua vida e matar seu outro homem, porque eu sou seu único homem. Pena tudo isso ser apenas fruto de minha imaginação doentia – doente por você, por nós.
Preocupe-se comigo, não vê que tudo que faço é pra chamar sua atenção? Só você não enxerga que nós brilhamos juntos?
O cego sou eu, não você.
Minha cabeça dói, acho que bebemos demais ontem à noite. Deixei as chaves em cima da mesa e as correspondências na cozinha. Também te fiz um café e lavei a bagunça que deixou no banheiro. Acho que tem alguma coisa errada com você. Seus olhos sempre parecem querer dizer: “Desculpa, não sei quem eu sou, mas gosto de você”.
Queria cuidar de mim do mesmo jeito que cuido de você, mas isso não mais importa. Vou-me embora para um lugar que não sei bem onde é, mas um dia sei que você também irá. Depois de ter te deixado tão mais maduro, meu bem, acho que isso é uma despedida.
Chegou a hora de pensar no azul desintegrando na chuva, na música. Dizem que é a segunda coisa que se pensa antes de morrer. A primeira é o desespero de saber que vai partir.
Amo muito você.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O pintor

Uma página em branco, dois copos de leite, um biscoito e uma caneta. Nada feito. Levantou-se subitamente, vestiu a camisa e desceu mesmo de short de pijamas. Atravessou a rua e, impulsionado pelo instinto da descoberta, comprou inúmeras tintas de todos os modos, cores, tamanhos e tons.

Parou, respirou e apertou os olhos. Abriu levemente a boca e, com um suspiro afogado, começou a jogar tintas no papel branco que estava sobre a mesa. Como uma cena em câmera lenta, surrava as cores sobre a tela branca e sorria. Em cada movimento de braço, sentia-se completamente satisfeito. Sem mais movimentos, olhou para tela e, decepcionado, amassou tudo que tinha feito, de nada adiantava pintar aquelas baboseiras, ninguém notaria.

Noutro dia, havia pensado que cada ser humano tem uma solidão diferente. É, pensava que havia descoberto um sentimento novo: A solidão. Mas não era aquela solidão que cada um de nós, até você mesmo que está lendo essas linhas tortas, conhece. Era a solidão que só você sabe qual é – aquela solidão que pra mim, é aquela música das ondas na praia, é o quadro branco rasgado de tintas de diversas cores, é aquilo que eu, no ápice do meu egoísmo, chamo de meu. Tudo aquilo que só eu construí, com minhas próprias mãos e cabeça dos outros.

É essa solidão que faz a gente entrar em um sentimento de transe e aprender a amar, mas não um falso amar – é o amar de verdade. É ver que cada traço, até mesmo da grama que você pisa, proporciona um momento que só aquela pequena grama te causaria naquele exato momento, porém, há ainda várias outras gramas no mundo e ele não para por aquele único pedaço de grama, nem por nenhum outro.

Era simplesmente a alma dele exposta em uma tela branca, mas, como sempre, ninguém notava a sensibilidade de cada traço das ondas que ele pintava, porque ninguém foi criado disposto a desenvolver uma solidão capaz de amar, são poucos os que conseguem – o pintor era um deles. E ao longo dos seus poucos anos de vida, procurava alguém com a mesma solidão que ele, mas nunca achava, sempre passava perto, mas ninguém nunca admirou seus quadros como uma peça única, achava que era um lixo, ou que simplesmente não tinham desenvolvido a mesma solidão que ele, e o que ele podia fazer?

Nada, uma página em branco não é apenas vácuo. Talvez seja o luto do silêncio, ou apenas a descoberta de uma nova cor.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A síntese da amizade

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Ontem eu vi um menino correndo na esquina de minha casa. Aparentemente oito anos, cabelos lisos maltratados, roupas sujas – um maltrapilho. Ele guardava um pote que continha alguma coisa muito especial nas mãos e corria tanto que tenho certeza que levava o vaso pra alguém que amava muito.

A poucos passos atrás dele, vi quando encontrou um buraco no meio do caminho e deixou que o pote caísse e derrubasse tudo! Feijão, arroz, macarrão, coragem...

Espalmado no chão, olhou para trás e, ao me ver vestido em uma farda de um colégio de classe média, sentiu tanta decepção, tanto desgosto que podia sentir o sangue subindo em sua cara – Era vergonha! Sentia-se uma merda em não poder vestir a mesma roupa que eu, sentia-se uma merda em não conseguir dar comida a alguém que amava. Que decepção!

Correndo mais ainda, seguiu a rua e parou ao lado de alguém. Era sua irmã, provavelmente, aquela que receberia a comida que ficara no chão, tão nojenta quanto ele. Nem sequer um olhar ele soltou pra mim quando passei, acho que se sentia humilhado. Mas eu só queria poder abraçá-lo, dizer que estava do lado dele e que estava tudo bem, tudo certo.

Isso não é prosa, é poesia.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Degradado

Eram dois garotos – Pluto e Gabriel. Como melhores amigos, brincavam em um grandessíssimo jardim de rosas até o cair da noite. Corriam, sorriam, pulavam – sempre no plural – iam de encontro a todos e a tudo só para ter um pouco do momento que os mesmos julgavam sagrado. Sentiam o gosto da infância, o gosto mais doce de todos.

Certa manhã de domingo, Pluto caiu na grama que aterrava o jardim, fatigado. Gabriel, ao notar a estranheza do amigo, sentou-se próximo e segurou-lhe a mão.

- Eu estou aqui, nada vai lhe acontecer.

Em um único impulso, Pluto beijou os lábios de seu melhor companheiro. O anjo, apesar de já ter feito aquilo antes, sentiu-se estranhamente assustado com o ímpeto do amigo e levantou-se fugindo da deliciosa sensação do proibido.

Passaram-se os meses e as brincadeiras ficavam mais curtas, viravam beijos e abraços, mãos perdidas, desejo, carência, lágrimas. Um dia, Pluto forçara o amante a comer as cerejas e, por mais que Gabriel não gostasse das cerejas, fez por não saber exatamente o que aquilo significava. Assim ficaram durante anos, o anjo comia e o outro apenas assistia, com imensa satisfação.

- Se comer a cereja inteira, sem mastigar, dou-lhe um beijo! – Pluto falava, Gabriel fazia.

O anjinho ia perdendo a asa aos poucos. Ia aperfeiçoando o gosto da cereja na boca e devorando com tanto prazer que, com certeza, tornara-se a cria perfeita de Pluto. Ele não fazia por mal, não queria mesmo sentir satisfação ao ver aquele menino - que um dia fora anjo - devorar as cerejas com tanto prazer. Mas sentia. Sentia e não pretendia parar com aquilo tão cedo. Era carência, precisava ver aquilo, precisava encostar suas cerejas nos límpidos lábios inocentes de alguém.

Certa noite, Gabriel viu o seu eterno amante dar as cerejas para outro garoto e para outro, para outro e todos comiam as frutas vermelhas com a mesma satisfação e devoção que ele. Pluto parecia outra pessoa, alguém possuído por um espírito mal feitor, que apenas buscava satisfação nos olhos daquelas crianças.

O garoto correu desesperadamente ao encontro do seu amante.

- Por que faz isso, demônio?

- Ora, não seja tolo. Acreditavas que eu pudesse te amar? Crescestes, não serve de nada! Saia já daqui do meu jardim!

Desesperadamente, Gabriel correu por entre as rosas que haviam murchado e machucavam-lhe como nunca haviam machucado antes. Os espinhos arrancavam-lhe pedaços de carne e por dentro, sentia os espinhos perfurando o que restava de seu coração. Lembrava das cerejas e sentia nojo ao lembrar o delicioso sabor que elas tinham, sentia nojo ao lembrar que ainda gostava daquele gosto. Corria.

Remorso para as asas que havia doado tão solenemente ao seu querido Pluto.

Ao sair do jardim, pessoas assistiam. Todas no escuro, rostos indefinidos, pedindo perdão pelos pecados daquela criança. Sim, aquela que um dia fora anjo. Seguravam foices e chamas.

Nu, o menino tentava enxugar as lágrimas do rosto, mas essas já tinham tomado todo o seu corpo e toda sua alma. Ouviu a voz de alguém muito pequeno falar:

- Lembre-se que um dia já teve asas e pôde voar. Doastes àquele que te apresentou as cerejas e elas, as asas, nunca mais voltarão.

Fechou os olhos sem saber onde estaria ao acordar.

Caído, via anjos e demônios.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Sonho, talvez

Dez minutos. Em dez minutos ela sairia pra comprar o pão que a mãe pedira. Deitada no sofá, rosto oleoso, sol das cinco, rotina. Dez minutos, Quinze, Vinte. Levanta e põe as chinelas, desce as escadas de seu apartamento.

Com o dinheiro na mão, ela se põe a andar. Por que era tão difícil caminhar naquela mesma calçada de sempre? Por que era tão árduo o pensamento de “O pra sempre nunca acaba”? Depois de tanto sofrer, tanto amar, tinha que encontrar sua felicidade numa calçada imunda, pela qual passava todos os dias pra comprar o pão? Pão este que era o responsável por mantê-la viva a cada dia. E o que é estar vivo? Viver seria o mesmo que sofrer? Valia mesmo a pena andar por todo aquele chão pra continuar sofrendo? E se ela um dia parasse e não fosse mais comprar aquele pão que a mantinha respirando todos os dias? Certamente, seu pensamento seria elevado aos céus e todo o martírio teria um fim.

Acordou. Volta ao chão imundo de sempre, encontrou-se na padaria.

Na fila, a menina olha para o ventilador como se aquilo fosse algo tão extraordinário, sem explicação. E ela apenas olha, não pensa em nada, em nada; apenas espera ser chamada e pedir os sete pães franceses quentinhos. Seria essa a mesma sensação de morrer?

Como o despertar de um novo dia, sua rotina foi quebrada. Seus olhos, os olhos dele. Foi um só encontro, um só momento. Apaixonara-se à primeira vista? Certamente, no mundo dela isso não mais existia. Mas qual o nome do sentimento que deixa as pernas bambas, o sorriso amarelo, o rosto oleoso, o coração saltitando e os olhos cheios de lágrimas? Amor, esse era o nome.

Mas um padeiro? Ela sonhava com um doutor, um que a pegasse para passear em um cavalo branco. Ah! Isso não mais importava. Para ela aquele era seu príncipe, seu doutor. E ela sabia que era amor, ele também.

No outro dia, ela já não ia mais pensando no martírio.

Acabaram juntos, como num conto de fadas. Mas não do jeito que ela sempre pensou, no jeito que ela sempre quis. Foi tudo às avessas, no simples fato de comprar aquilo que a mantinha viva.